Moradores do Alemão se trancam e perdem trabalho com medo de operação policial

RIO DE JANEIRO, RJ, 21.07.2022 - VIOLÊNCIA-OPERAÇÃO-ALEMÃO-RJ - Moradores retiram corpo de homem baleado pela polícia durante operação conjunta no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (21). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
RIO DE JANEIRO, RJ, 21.07.2022 - VIOLÊNCIA-OPERAÇÃO-ALEMÃO-RJ - Moradores retiram corpo de homem baleado pela polícia durante operação conjunta no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (21). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A manicure Patrícia do Carmo, 43, precisou se esconder no banheiro com a filha de 11 anos por causa da intensa troca de tiros no Complexo do Alemão, alvo de operação policial nesta quinta-feira (21). Ela mora na localidade da Fazendinha e calcula estar a cerca de 500 metros do ponto do tiroteio.

"Comecei a ouvir os tiros por volta das 6h, quando estava tomando banho. Chamei minha filha e ficamos lá por mais de 30 minutos. Sentíamos que os tiros estavam muito perto, preferimos não pagar para ver", afirmou.

Oficialmente, ao menos cinco pessoas morreram. A PM afirmou que um de seus agentes morreu em meio à ação. Moradores denunciaram que uma mulher dentro de um carro foi assassinada por um policial militar —sua morte foi confirmada pela UPA da região. A corporação diz que três homens foram encontrados mortos em meio aos confrontos.

A reportagem viu, porém, sete corpos sendo carregados por moradores em lonas e toalhas no final da manhã.

Matheus Andrade, 22, estudante e morador do Complexo do Alemão, teve a rotina inteiramente afetada pelo tiroteio: faltou ao trabalho e não irá para a faculdade.

"Eu fui acordado às 5h da manhã em meio a tiros na comunidade. Por conta da operação não pude trabalhar, não vou para autoescola e não vou conseguir ir para aula na faculdade. Há diversos relatos de amigos com casas alvejadas e vídeos de moradores com casas depredadas", relatou.

Outra moradora, que prefere não se identificar, diz que está trancada em casa desde o início da operação e que avisou à empresa em que trabalha que não poderá sair nesta quinta-feira. Ela mora na parte alta do Alemão, onde, segundo ela, os tiros são incessantes desde o começo da manhã.

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio informou que as clínicas Zilda Arns e Rodrigo Roig, na região, acionaram o protocolo de acesso mais seguro e estão com funcionamento suspenso na manhã desta quinta. As escolas municipais da região, em razão do recesso escolar, estão fechadas.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que informações dos setores de inteligência indicaram a presença de criminosos do Complexo do Alemão praticando roubos de veículos, principalmente nas áreas dos bairros do Grande Méier, Irajá e Pavuna.

O grupo é suspeito de roubos a bancos e roubos de carga, além de planejar tentativas de invasão a outras comunidades.

Ainda segundo a polícia, durante a operação, criminosos colocaram fogo em barricadas, jogaram óleo na via e atacaram os agentes.

Moradores de outros bairros do entorno relataram também disparos atingindo as comunidades. A cerca de dois quilômetros dali, Roni Idelfonso, 23, foi atingido por um tiro de raspão dentro da casa de três andares onde mora com a família em Ramos, zona norte.

A esposa, Juliana Azevedo, 26, disse acreditar que o disparo tenha vindo da operação no Complexo do Alemão. A bala de fuzil furou o teto e atingiu a barriga do marido.

"A gente estava dormindo no último andar da casa, por volta de 6h30. Acordei com o barulho de alguma coisa caindo e o teto estilhaçando, com poeira em cima de mim. O revestimento externo é de telha e por dentro é de PVC. Na mesma hora, ouvi meu marido gritando ‘minha barriga!’. Percebi que algo tinha acontecido", conta Juliana.

"Vi o buraco que estava no teto. No chão, uma bala de fuzil, fina e comprida. Meu marido sentiu dor, mas como o tiro foi de raspão, ele conseguiu ir trabalhar. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais perto é justamente a do Alemão, não faz sentido ir para lá", continua.

OUTRAS OPERAÇÕES NO RIO

A operação ocorre em meio à decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que restringiu as operações policiais para casos excepcionais no estado do Rio de Janeiro, enquanto durar a pandemia da Covid-19.

Em maio, operação policial na Vila Cruzeiro, a segunda mais letal no estado, resultou na morte de 23 pessoas. A favela é vizinha ao Alemão, alvo da ação desta quinta-feira.

A operação mais letal ocorreu em maio de 2021, na favela do Jacarezinho. Foram mortas 28 pessoas, sendo um policial civil

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