Moradores de comunidade em Vargem Grande rebatem afirmação de Crivella de que há quem viva em área de risco por opção

Lucas Altino
Somente nesta quinta-feira a água começou a escoar com mais rapidez na Santa Luzia, após chuvas do fim de semana

O caminhar natural mesmo com a água batendo nas canelas evidencia que a situação já se tornou rotineira. Na comunidade de Santa Luzia, em Vargem Grande, na Zona Oeste, as inundações são frequentes, e moradores enfrentam a rua transformada em rio com simples tênis ou chinelos. A população, de cerca de sete mil pessoas, fica em casas próximas ao assoreado Canal do Portelo, numa região em que não há rede de esgoto ou sistema adequado de dragagem, mesmo após reiterados pedidos à prefeitura.

Dias após a redução do volume de chuva, a comunidade permanecia alagada nesta quarta-feira, quando o EXTRA esteve lá. Somente nesta quinta-feira a água começou a baixar. Neste contexto, o discurso do prefeito Marcelo Crivella culpando “grande parte da população” que joga lixo em rios pelas enchentes — depois ele se desculpou — ainda causa lamento e revolta. Ele também disse que há pessoas que gostam de morar perto de rios porque “gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo”.

Depois de muitos anos de trabalho, Rosangela Menezes e seu marido conseguiram juntar dinheiro para construir uma quitinete na comunidade. Como a condição financeira não era das melhores, os dois se instalaram perto do rio e logo viram outras casas crescerem coladas à deles. Depois da tempestade do último fim de semana, porém, a moradia do casal ficou inacessível.

— A quitinete está cheia de água, não consigo mais entrar em casa. Vou precisar gastar com aluguel, quase R$ 2 mil por mês, ou pedir para morar de favor com amigos e familiares — afirmou Rosangela.

Maria do Carmo, que mora há 16 anos na Santa Luzia, rebate as afirmações de Crivella e cobra melhorias para a comunidade:

— O prefeito fala isso porque mora no paraíso. Ele fica diminuindo nós, pobres, e depois pede desculpas. Não adianta. Queremos melhorias, é sempre esse drama, a água entra nas casas. As pessoas aqui não têm opção. Não temos condição de pagar aluguel ou contas altas, por isso as casas vão crescendo à beira do rio.

Os moradores admitem que há pessoas que jogam lixo no canal, apesar das advertências da maioria, e enxergam o crescimento desordenado e perigoso à beira do rio. Eles dizem que os alagamentos se intensificaram nos últimos anos.

— No ano passado, ligamos 500 vezes para o 1746 (telefone para solicitar serviços à prefeitura) pedindo a dragagem do Canal do Portelo e um sistema de drenagem. Depois de muito tempo eles responderam que não poderiam fazer o sistema porque há construções na beira do canal — disse Antônio Rodrigues, cuja loja de bicicleta ficou com água até quase um metro de altura mesmo dias após o temporal.

A Santa Luzia também não dispõe de rede formal de esgoto, e o despejo ilegal contribui para o assoreamento do canal. Mas moradores dali denunciam que condomínios próximos também lançam dejetos irregularmente no canal e até em ruas da comunidade. A Comlurb — que presta um bom serviço na região, segundo os moradores — não fez a coleta nessa semana porque as ruas estavam alagadas.

A moradora Antonia Herminia da Silva disse que o prefeito “não tem noção da vida”. Ela, que amputou uma das pernas após complicações devido a varizes, perdeu sua consulta com o angiologista nessa semana porque não conseguiu sair de casa, já que não foi possível cruzar as ruas alagadas da comunidade de Santa Luzia de cadeira de rodas.

— Minha filha sai nessa água e eu fico preocupada. Não consigo me locomover nessa rua, preciso ficar em casa — lamentou Antonia, que chegou à Santa Luzia há 32 anos (hoje ela tem 72), quando a comunidade era muito pequena. — Desse lado do canal praticamente só tinha eu e mais uma casa, mas cresceu pela falta de opção para a população. Alagava menos, tudo piorou quando começaram a subir condomínios. O prefeito não tem noção das coisas, não tem noção da vida.

Após se arriscarem nas ruas alagadas, os moradores dizem que precisam abusar do banho de álcool. Outra tática é passar de bicicleta pelos trechos ainda cheios, para diminuir o contato com a água suja.

— Como tenho uma boa área de recuo, a água da chuva dessa vez só parou no quintal, não entrou na casa. Eu moro aqui há quase 30 anos e sempre ouço falar de sistema de drenagem, mas nunca fizeram — disse Neusa Senemo, que mora na beira do canal. — Por baixo da minha casa passa uma manilha, que a prefeitura fez há muitos anos para escoar água da chuva, só que agora é cheio de ligação de esgoto.

RESPOSTAS DAS AUTORIDADES

ALAGAMENTOS

A Subsecretaria municipal de Conservação respondeu que mantém, desde a última segunda-feira, dia 2, equipes em “várias ruas dessa área e tem realizado serviços de desobstrução de ralos e bueiros, limpeza de galerias, além do trabalho feito com caminhões do tipo vac-all para sugar e eliminar os bolsões d’água e alagamento nas vias”. As equipes ficarão, de acordo com a pasta, até o problema ser resolvido.

DRAGAGEM

A Fundação Rio-Águas explicou que os serviços de dragagem do rio em Santa Luzia, com maquinário, são dificultados pela presença das casas, e que essas moradias estão sujeitas às inundações, por isso são áreas proibidas para construções. Mas respondeu que está “viabilizando acesso ao canal para limpeza”.

ESGOTO

A Cedae afirmou que o esgoto da comunidade de Santa Luzia é de responsabilidade da prefeitura, por ser uma área informal, mas disse que a Área de Planejamento 4 (que inclui Vargem Grande) será beneficiada por 41 obras de esgotamento que começarão em 2021.