Moradores de Paraisópolis relatam abusos policiais durante operação iniciada há dez dias

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Moradores da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, relatam abuso de policiais que realizam uma operação saturação na comunidade. “Há uma semana policiais do Choque arrombaram a fechadura e invadiram minha casa às 10 horas da manhã, quando eu estava trabalhando e minha mulher e filhas não estavam; reviraram tudo, até embalagem de chocolate abriram e deixaram largada”, conta um motorista de ônibus sobre o ocorrido no dia 18 de Junho. Temendo represálias, ele prefere não se identificar. “Foram os vizinhos que me contaram quando voltei, mas não denunciaram porque têm medo, todos têm; minha casa não foi a única, há muitos relatos por aí”, reclama.

Moradores vem usando as redes sociais para denunciar os casos. Em um deles, um jovem mostra a casa revirada e afirma que ele e dois amigos teriam sido abordados por policiais: “entraram com os três aqui dentro, abordaram falando que somos bandidos; essa é a polícia que nós temos, confio só em Deus, porque o diabo veste farda”, diz o morador em um vídeo divulgado nesta quinta-feira (24), em um trocadilho com o filme “O diabo veste Prada”.

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As ações na segunda maior comunidade de São Paulo e bairro com a maior concentração de população do país começaram há 10 dias. Segundo lideranças comunitárias, a operação foi motivada pelo desaparecimento de duas jovens que frequentavam uma casa noturna no interior da favela no dia 3 de junho. Os corpos de duas mulheres foram encontrados no último dia 15, às margens do Rodoanel em Itapecerica da Serra, e o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), que investiga o caso, já identificou um deles como de uma das desaparecidas.

"Estávamos em uma ação social fora de São Paulo e quando chegamos de volta, descobrimos que os policiais estão agindo com brutalidade sobre a população depois de encontrarem essas vítimas; agem como se todos tivessem algo a ver com isso”, relata uma liderança ouvida.

A Secretaria da Segurança Pública e a PM confirmam as incursões em Paraisópolis e afirmam em nota que "As imagens serão analisadas pela instituição. Toda denúncia pode ser registrada na corregedoria da PM, que está à disposição para apurar os fatos".

Falsa acusação

Em uma das filmagens postadas pelos moradores no Instagram e no Facebook de grupos de Paraisópolis, aparece um jovem empurrado por um policial militar e um adolescente gemendo e gritando cercado por policiais da Tropa de Choque em uma viela. Num primeiro momento, ele grita desesperado chamando por sua mãe.O autor da filmagem comenta que os dois foram agredidos pela PM, no entanto as imagens não mostram as violações.

A página no Instagram Sobre Paraisópolis publicou um vídeo em que o suposto rapaz abordado comenta a ação. “Os caras queriam jogar 2,5 kg de cocaína nas minhas costas. Queriam me levar preso, queriam rasgar meu RG. Minha sorte foi que minha mãe apareceu na hora, porque senão os caras iriam me levar. Eles queriam saber onde era o barraco bomba, eu não sabia de nada”, comenta o jovem no vídeo.

Na mesma página uma moradora reclama de outra invasão a domicílio sem mandado: “Aqui na favela de Paraisópolis, na nossa comunidade, é o que a gente sofre: é agressão, é opressão, é polícia invadindo casa. Semana passada eles estavam aqui, eles invadiram a casa da minha irmã, trabalhadora”.

A Ouvidoria das polícias do Estado de São Paulo afirmou em nota que requisitou que a Corregedoria apure rigorosamente as denúncias de abusos na Operação Saturação, e que foi instaurado um procedimento na Ouvidoria para acompanhar o caso.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirma que a Polícia Militar “prendeu entre o dia 15 e 23 de Junho 19 criminosos em flagrante, recapturou quatro procurados pela Justiça e apreendeu um menor infrator”. Segundo a pasta, também foram apreendidos mais de 100 kg de drogas foram apreendidos, e três armas retiradas das ruas.

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