Moradores do Grande Rio mostram o que têm visto de suas janelas e aprendido durante a quarentena

Yasmin Setubal
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Coronavírus - Janelas da Quarentena. Foto de Márcia Foletto / Agência O Globo

Abrir a janela já não tem mais apenas o objetivo de deixar o sol e o ar entrarem. O gesto, antes feito quase de forma automática, tornou-se essencial para quem está em isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus. Rota de fuga para os confinados, a janela hoje conecta os moradores da cidade com o lado de fora, com a natureza, com os vizinhos. Observar a rua por essa abertura é agora prática tão comum que fotografias mostrando os cenários vistos pelas janelas viraram febre nas redes sociais. Só no Instagram, há mais de 355 mil publicações com a hashtag “view from my window”, traduzido do inglês para “vista da minha janela”.

 

A psicóloga Juliana Sato explica que a janela é uma fonte de imaginação que ajuda a manter a saúde mental das pessoas durante o período de isolamento social.

— A janela se tornou a forma de se conectar com o mundo de maneira segura e relaxada, então, você pode imaginar que está em algum lugar e sonhar que pode voltar à sua vida normal. Esses momentos de imaginação ajudam muito a manter o nosso equilíbrio emocional, porque é a oportunidade que temos de olhar para fora em vez de para o que há de ruim dentro — afirma a psicóloga.

Em tempos de Covid-19, janelas, lajes e terraços permitiram descobertas sobre a vizinhança. É por essa abertura que se tem apreciado como nunca um nascer ou o pôr do sol, que quarteirões inteiros têm cantado “parabéns” para aniversariantes, que os panelaços de protesto têm sido ouvidos, que músicos têm dado uma “canja” para os vizinhos. Mas nem tudo são flores, claro. Agora é preciso conciliar o home office com o som que chega pela janela no volume máximo, ouve-se a briga entre parentes da casa logo ali na esquina, vê-se a vizinha bisbilhotando a vida alheia. Também se percebe o menor movimento nas ruas, na estação de trem, nas escolas próximas, ao passo que se notam as luzes do hospital acesas.

— Ver o hospital mais aceso me dá uma angústia de saber que tem pessoas infectadas, mas também me passa esperança, sabendo que há pessoas que trabalham para ajudar as outras e desenvolver uma vacina — diz a estudante de Fisioterapia Fernanda Gama, que avista de casa o Hospital do Fundão.

Ela e outros moradores do Grande Rio contaram ao EXTRA sobre suas experiências e aprendizados, adquiridos sem sair de casa, e o que notaram de diferente nos arredores do lugar onde moram.

Vizinhos mais distante, mas conexão maior

O café da manhã sempre foi importante para a família da estudante de Gastronomia Maiara Oliveira, de 21 anos. Ela, então, teve a ideia de acordar todos às 5h para tomar café no terraço de casa, vendo o nascer do sol. Na vizinhança, ela ainda observou um fato curioso: muitos vizinhos estavam chamando os outros pelas varandas para conversar, uma novidade trazida pela pandemia. Com a rua mais silenciosa, a moradora de Campo Grande consegue ouvir mais o canto dos pássaros, som que não percebia na correria da rotina.

— Estou conseguindo ver o mundo de outra forma e valorizar o simples. Vejo que as pessoas na minha rua estão muito mais conectadas, mesmo distantes.

Família muito mais unida dentro de casa

A maior mudança Pedro Adelaide, de 24 anos, morador da Cidade de Deus, notou foi dentro de casa. O isolamento conseguiu unir a família, que agora faz muitas atividades em conjunto, como assistir a filmes, cozinhar e limpar a casa. O estudante de Letras comenta que ainda há conflitos por conta de posições políticas divergentes, mas os laços nesta quarentena foram fortalecidos. Ele ainda destaca que a circulação de pessoas na comunidade em que mora parece continuar a mesma.

— Parece que está tudo igual. A diferença vem à noite, quando parece que as pessoas respeitam mais o isolamento. Talvez o medo de retaliações seja maior que o da própria doença.

A vista do entardecer e o som de pássaros

Sem poder trabalhar fora, a fisioterapeuta Simone Vieira, de 47 anos, resolveu lavar as cortinas de casa depois de uma década. Além disso, trocou todas as plantas artificiais da casa por naturais, para se dedicar à tarefa de cuidar delas todos os dias. Confinada em casa em virtude da recomendação dos governos estadual e municipal de Niterói, a moradora de Icaraí começou a notar ângulos da varanda que até então eram desconhecidos.

— Hoje consigo escutar os passarinhos cantarem. Antigamente, quando dava 6h, era aquela correria de escola, trabalho, trânsito. Agora, vou para a varanda agora assistir ao entardecer, coisa que normalmente eu não estaria em casa para ver.

Mais música gospel e solidariedade

Pela visão que a costureira Deize Pimentel, de 60 anos, tem do terraço de casa, que fica na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, o movimento de pessoas na comunidade é constante. No entanto, Deize percebeu uma diminuição da aglomerações nos bailes e da frequência dos tiroteios e confrontos.

— Eu venho notando também que, por mais que a comunidade não esteja ligando muito para a Covid-19, as pessoas estão falando mais de Deus e escutando muita música gospel. Vejo também no local onde eu moro que os meus vizinhos estão trabalhando bastante esse conceito de solidariedade.

Sem área de lazer, vizinhos se exercitam

César Belo, de 54 anos, morador de Belford Roxo, diz que o contato com os vizinhos diminuiu na quarentena. No entanto, ao olhar pela janela, viu que muitas pessoas estão aproveitando uma área grande do condomínio para fazer exercícios físicos, já que a piscina e a churrasqueira foram fechadas. Para se distrair, o despachante documentalista comprou jogos de tabuleiro e voltou a cantar com karaokê.

— As áreas de diversão do condomínio ficaram com acesso restrito. Então, muitas pessoas que eu não via fazer exercício estão fazendo. Também reparei na diminuição do tráfego de aviões, que sempre passavam por aqui indo e vindo do Galeão.

Pipa no terraço e ‘vizinha curiosa’

O morador de Campo Grande Thiago de Jesus, de 21 anos, retomou um hábito antigo durante essa quarentena: voltou a soltar pipa, uma atividade que ele fazia quando criança. Além disso, confessa vir se estressando com a vizinhança. O fotógrafo, de 21 anos, percebeu que a “curiosidade” de uma das vizinhas sobre o que todos do bairro fazem aumentou.

— Todos os dias, estou soltando pipa, estou curtindo muito. Era algo que eu não fazia há muito tempo. Mas o que vem me irritando é minha vizinha, que não pode ver um carro ou moto que ela já aparece no portão. Outro dia, rolou uma confusão no meio da rua por isso.

Cumprimento de longe com brilho nos olhos

A psicóloga e sexóloga Cristiane Nassar, de 49 anos, observou que na quarentena, os vizinhos do condomínio parecem ficar com um brilho nos olhos quando se cumprimentam de longe. A sensação da moradora da Freguesia, Jacarepaguá, é que há um clima de “luto”. A piscina, antes cheia de crianças, permanece vazia, e o silêncio predomina.

— Aqui sempre foi quieto, mas a situação tomou uma proporção maior. Antes, você não via muitos carros na garagem, hoje os carros estão todos lá, ninguém sai. aprendi a nunca mais deixar de sair por não ter companhia, algo que fazia muito. Só conseguimos dar valor à liberdade depois que tiram ela de você.

Sem som de baile e com união familiar

A pandemia levou Edson de Deus, morador de Itaguaí, de 27 anos, ao desemprego. Mas, para o dançarino profissional, algo “extraordinário” veio dar força a ele nesse momento difícil: a reaproximação com a família.

— Boa parte da minha família se encaixa no quadro de risco, e não éramos tão próximos. Isso nos uniu mesmo à distância. Criamos grupo no WhatsApp, com os nossos corações cheios de gratidão pela vida um do outro.

Onde mora, o movimento na rua caiu e, nas comunidades próximas, não há mais baile:

— Quando tem, o som é altíssimo. Mesmo que esteja a 3km, o som parece estar dentro de casa. Mas acabou, não ouço mais.

Sem movimento de crianças nas escolas

Para a enfermeira Solange Campos, de 54 anos, o isolamento social tem outro significado: o aumento do trabalho no atendimento aos pacientes com Covid-19 e a preocupação de se infectar. Para ela, ficar em casa não é uma opção. E não poder receber visita do namorado ou visitar seus pais tem sido difícil. Mas quando ela chega do trabalho, no Méier, a pandemia ganha nova dimensão:

— Quando olho através da minha janela, vejo o quanto uma pandemia muda nossa vida. Moro perto de duas escolas, e não vejo mais a movimentação das crianças. Fico muito triste quando me dou conta dessa situação.

Luzes do hospital acesas e menos voos

A estudante de Fisioterapia Fernanda Gama, de 18 anos, mora no 9º andar de um prédio em Olaria com o namorado. Da janela, consegue ver o Hospital Universitário do Fundão, administrado pela UFRJ, e percebeu que há mais luzes acesas. Além disso, a constatou que o fluxo de aviões diminuiu.

— Eu sempre brincava com meu namorado que a qualquer momento um avião bateria aqui, porque passava muito. Ver o hospital mais aceso me dá uma angústia de saber que tem pessoas infectadas, mas também me passa esperança, sabendo que há pessoas que trabalham para ajudar as outras e desenvolver uma vacina.

Estação de trem esvaziada em Tomás Coelho

O estudante de História Pedro Souza, de 23 anos, aproveita o período de isolamento social para retomar sua rotina de leitura. Época perfeita para isso, já que o pouco movimento da estação de trem de Tomás Coelho, como vem percebendo pela janela, diminuiu também o ruído.

— Fora do prédio, a redução de circulação foi bem drástica. Minha janela dá de frente para estação. Mesmo assim, ainda tem muito jovem que não precisa trabalhar, mas sai de casa — diz ele, que também se queixa de dois vizinhos, um que está com a casa em obras e outro que toca bateria de manhã: — Percebo que falta um pouco de tato com a situação.