Moradores de Paraisópolis relatam abusos policiais na favela e marcam protesto

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os moradores da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, programaram para a tarde desta terça-feira (29) um protesto contra supostos abusos praticados por policiais militares durante ações que vêm sendo desencadeadas na região há quase duas semanas.

Desde o início da Operação Saturação, no último dia 15, moradores têm divulgado nas redes sociais vídeos de abordagens policiais que sugerem abusos por parte de PMs, por conta de comentários feitos pelas pessoas que fazem as filmagens e gritos de um suspeito sendo abordado.

Os moradores também relatam nas redes sociais supostas invasões de residência, ameaças e até tentativas de incriminação com prisões forjadas. As reclamações de moradores e supostos abusos foram revelados pelo G1. Nenhum dos vídeos aos quais a reportagem teve acesso, porém, mostra agressões.

A Ouvidoria afirmou que requisitou que a Corregedoria da Polícia Militar apure as denúncias de abuso e que vai acompanhar as investigações, cobrando rigor nos trabalhos.

"As imagens divulgadas por moradores apontam indícios de abusos cometidos durante a Operação Saturação em Paraisópolis. [...] Hoje os moradores têm uma ferramenta em defesa de seus direitos que são os celulares, e isso mostra como as câmeras nos uniformes serão aliadas da população e dos bons policiais na defesa do respeito aos direitos humanos”, diz nota.

Na operação, a Polícia Militar aumentou exponencialmente o número de policiais e equipes com o objetivo principal de sufocar o tráfico de drogas, com uma série de abordagens e bloqueio de vias. Os policiais têm impedido também a realização de bailes funks nas ruas.

O protesto está sendo organizado pelos líderes comunitários da favela que afirmam haver vários relatos de moradores sobre violência policial por parte de policiais. “Não somos contra que a polícia faça a ações em Paraisópolis, que faça todo o processo que o Estado precisa fazer, mas nós não queremos novamente um caso de violência como o do baile que resultou em morte”, disse Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis.

Rodrigues se refere à ação da Polícia Militar de São Paulo em dezembro de 2019 que resultou em nove mortos e outras 12 pessoas feridas. Nove policiais que participaram da ação foram indiciados neste mês pela Polícia Civil por homicídio culposo (sem intenção).

Ainda segundo o líder comunitário, os casos de violência policial, que eram comuns no local, tiveram um incremento justamente desde essa ação em dezembro de 2019.

“Por isso a comunidade tem se mobilizado para fazer essa denúncia, e amanhã [terça] vai haver essa caminhada que deve passar pela [avenida] Giovanni Gronchi para pedir paz pela comunidade e para pedir que a polícia cumpra seu papel sem penitenciar a população. A população é vítima de uma série de violência, e ser mais uma vez vítima de violência do Estado é um absurdo”, disse.

Rodrigues disse ainda que a comunidade não se incomoda com a presença da PM no local desde que não haja abusos como crianças sendo abordadas por PMs e ruas com acesso bloqueado. “É uma comunidade tranquila, pacífica, de trabalhadores.”

Segundo a reportagem apurou, integrantes da cúpula da PM vão investigar os casos de abuso, mas vão manter a operação no local. Membros da corporação acreditam que parte dessas reclamações está sendo orquestrada por criminosos do PCC, que domina a favela e controla o tráfico de drogas na comunidade.

Foi nessa mesma comunidade que, em agosto de 2018, a policial militar Juliane dos Santos Duarte, 27, foi sequestrada, torturada e morta por criminosos ligados à facção. A ordem da morte da PM partiu, segundo investigação da polícia e Promotoria, de chefes do tráfico.

A Secretaria de Segurança Pública diz que a Polícia Militar realiza a Operação Saturação em Paraisópolis com o objetivo de intensificar o policiamento na região.

"Desde 15 de junho até 25 de junho, os policiais prenderam 19 criminosos em flagrante, recapturaram oito procurados pela Justiça e apreenderam sete menores infratores. Mais de 293 quilos de drogas foram apreendidos, 236 veículos vistoriados e quatro armas retiradas das ruas. Cumpre ressaltar que o ofício enviado pela Ouvidoria foi recebido pela Corregedoria da PM e todas denúncias serão apuradas. Em relação às imagens apresentadas, após análise preliminar, não foram constatadas irregularidades ou inconformidades", diz nota enviada pelo governo paulista.

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