Moradores do Rio multiplicam correntes de ajuda ao próximo para enfrentar a crise e levar esperança

Diego Amorim, Marcelo Antonio e Yasmin Setubal
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Gabriel Monteiro / Agência O Globo

RIO — O ano de 2020 não foi fácil, mas é certo que deixará para a população do Rio um legado de solidariedade. Em meio ao combate ao coronavírus, são muitos os moradores da cidade que acreditam no trabalho voluntário como forma de enfrentar a crise e levar esperança aos que precisam — sejam eles moradores de rua, trabalhadores informais, famílias em condição financeira precária, integrantes de grupos de risco da doença e pessoas que necessitam de apoio psicológico para enfrentar as mudanças impostas pela pandemia. Para este Natal, foram formadas muitas correntes de ajuda ao próximo, com muita gente disposta a fazer o bem.

— A pandemia nos distanciou fisicamente, mas uniu corações. Por mais que aconteça a tempestade, há aprendizados. Tenho uma filha de 11 anos e quero dar esse exemplo — conta o representante comercial Marcelo Perri, que reside em São Cristóvão e criou uma rede de ajuda a idosos que estão em isolamento social.

O condomínio onde Perri mora tem um grande número de idosos. No início da pandemia, ele e vizinhos passaram uma circular na qual se ofereceram para fazer compras no mercado e a ir à farmácia.

— Foi gratificante demais. Todos os voluntários são doadores de amor — agradece a professora aposentada Susanne Charlotte, de 77 anos.

Gratidão é a palavra que define o sentimento das milhares de famílias beneficiadas com o trabalho do educador popular Jota Marques, da Cidade de Deus. Desde março, ele distribuiu 3.600 cartões com crédito de R$ 100 em 15 comunidades do Rio.

— Nós criamos o cartão “quebra-galho” em parceria com a ONG Brazil Foundation porque acreditamos que as famílias devem ter autonomia para decidir o que vão comer. Já fui uma criança no colo da mãe aguardando numa fila por doação. O ano de 2020 nos mostra que estamos interligados por um senso de responsabilidade coletiva — destaca ele, do coletivo Marginal.

Há 27 anos, a Ação da Cidadania, fundada por Betinho, promove o “Natal sem fome”. Para o de 2020, foram arrecadadas mais de 1.500 toneladas de alimentos. Já são mais de 26 mil famílias beneficiadas, só no Rio. As cestas são recolhidas e entregues a 260 entidades pelo Brasil.

— Famílias que nunca precisaram de uma cesta básica nos procuraram este ano. A campanha vem para denunciar a falta de políticas de combate à fome no país — explica Norton Tavares, à frente de toda a logística.

Já o produtor cultural Rafael Oliveira é “cria” da Gardênia Azul, na Zona Oeste, onde fundou um coletivo para oferecer cursos. Com a Covid-19, a ação ganhou outro rumo:

— Começamos com uma campanha de conscientização sobre isolamento e higiene. A partir de parcerias e doações, conseguimos, em quatro meses, entregar duas mil cestas básicas — diz ele, comentando as campanhas que se multiplicam nas comunidades. — As favelas assumiram esse papel graças às aulas de solidariedade, sobrevivência e preocupação coletiva.

No início da pandemia, a psicóloga Ana Luiza Novis lançou o Projeto Humanidades 2020. Cerca de 80 profissionais prestam atendimento gratuito a quem precisa tratar as angústias do mundo atual.

— Ser solidário é dar o que tem. Assim, descobre-se que o que você tem é mais do que suficiente para transformar a própria vida e a vida de alguém — aponta Ana Luiza.

Carinho nas ruas

Nelson Fernando Ferreira, de 60 anos, vive embaixo da marquise do prédio da Defensoria Pública, no Centro do Rio, há três meses, quando foi expulso de casa pelos dois enteados, depois que sua mulher faleceu. Para ele, a ceia natalina chegou através de voluntários do Corrente Pelo Bem, que atende pessoas em situação de rua. O Ronda Urbana de Amigos Solidários (RUAS), outro projeto de ação social, também não deixou de se mobilizar nesta época, distribuindo refeições, panetones e kits de higiene.

— Isso que eles fazem é muito bom, ajuda demais. Não tenho nem palavras para falar o quanto isso é importante — comenta Nelson.

As ações de Natal dos dois projetos foram realizadas sob chuva. Dezoito voluntários do RUAS deram assistência a pessoas no Largo do Machado e na Tijuca, enquanto 150 do Corrente Pelo Bem percorriam o Centro. Nessa região, foram distribuídos 500 jantares e outros itens, como docinhos e brinquedos.

—O ano de 2020 foi muito triste, por tantas pessoas que perderam familiares e empregos, por tanta gente que ficou na miséria. O mais importante é a gente ser humano nessas horas — diz Rodrigo Freire, presidente do Corrente.

Fernanda Muller, de 34 anos, foi uma das assistidas por voluntários do RUAS no Largo do Machado:

— Hoje, esse pessoal é a nossa família.