Moradores do Rio multiplicam correntes de ajuda ao próximo no Natal

Diego Amorim, Marco Antonio e Yasmin Setubal
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O ano de 2020 não foi fácil, mas é certo que deixará também para a população do Rio um legado de solidariedade. Em meio ao combate ao coronavírus, são muitos os moradores da cidade que acreditam no trabalho voluntário como forma de enfrentar a crise e levar esperança aos que precisam — sejam eles moradores de rua, trabalhadores informais, famílias em condição financeira precária, integrantes de grupos de risco da doença e pessoas que necessitam de apoio psicológico. Para este Natal, foram formadas muitas correntes de ajuda ao próximo, com gente disposta a fazer o bem.

— A pandemia nos distanciou fisicamente, mas uniu corações. Por mais que aconteça a tempestade, há aprendizados. Tenho uma filha de 11 anos e quero dar esse exemplo — conta o representante comercial Marcelo Perri, que reside em São Cristóvão e criou uma rede de ajuda a idosos que estão em isolamento social.

O condomínio onde Perri mora tem um grande número de pessoas mais velhas. No início da pandemia, ele e vizinhos passaram uma circular na qual se ofereceram para fazer compras no mercado e a ir à farmácia.

— Foi gratificante demais. Todos os voluntários são doadores de amor — agradece a professora aposentada Susanne Charlotte, de 77 anos.

Gratidão é a palavra que define o sentimento das milhares de famílias beneficiadas com o trabalho do educador popular Jota Marques, da Cidade de Deus. Desde março, ele distribuiu 3.600 cartões com crédito de R$ 100 em 15 comunidades do Rio.

— Nós criamos o cartão “quebra-galho” em parceria com a ONG Brazil Foundation porque acreditamos que as famílias devem ter autonomia para decidir o que vão comer. Já fui uma criança no colo da mãe aguardando numa fila por doação. O ano de 2020 nos mostra que estamos interligados por um grande senso de responsabilidade coletiva — destaca ele, do coletivo Marginal.

Há 27 anos, a Ação da Cidadania, fundada por Betinho, promove o “Natal sem fome”. Para este ano, foram arrecadadas mais de 1.500 toneladas de alimentos. Já são mais de 26 mil famílias beneficiadas, só no Rio. As cestas são recolhidas e entregues a 260 entidades espalhadas por todo o Brasil.

— Famílias que nunca precisaram de uma cesta básica nos procuraram este ano. A campanha vem para denunciar a falta de políticas de combate à fome no país — explica Norton Tavares, à frente de toda a logística.

Já o produtor cultural Rafael Oliveira é “cria” da Gardênia Azul, na Zona Oeste, onde fundou um coletivo para oferecer cursos. Com a Covid-19, a ação ganhou outro rumo:

— Começamos com uma campanha de conscientização sobre isolamento e higiene. A partir de parcerias e doações, conseguimos em quatro meses entregar duas mil cestas básicas — diz ele, comentando as campanhas que se multiplicam nas comunidades: — As favelas assumiram esse papel graças às aulas de solidariedade, sobrevivência e preocupação coletiva.

No início da pandemia, a psicóloga Ana Luiza Novis lançou o Projeto Humanidades 2020. Cerca de 80 profissionais prestam atendimento gratuito a quem precisa tratar as angústias do mundo atual.

— Ser solidário é dar o que tem. Assim, descobre-se que o que você tem é mais do que suficiente para transformar a própria vida e a vida de alguém — aponta Ana Luiza.