Moradores do Rio planejam para a noite de Natal brindes e celebrações das varandas e janelas para amenizar distância

Diego Amorim e Pedro Zuazo
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RIO — No Natal que será lembrado pelas famílias divididas pelo avanço da Covid-19 no Rio, a noite terá celebrações à vida com um brinde a quem esteve mais próximo. A pandemia pode ter afastado parentes, mas foi capaz de estreitar laços entre vizinhos, criando novas relações de amparo e companheirismo. Muitos dos que, em respeito ao distanciamento social, decidiram passar a festa sem a tradicional reunião familiar em torno da ceia encontrarão hoje nas janelas e varandas o que de melhor 2020 trouxe: o espírito de solidariedade. Da Zona Norte à Zona Sul, essa será a verdadeira magia do Natal deste ano no Rio.

— Geralmente toda a família se reúne na casa da minha mãe, mas este ano ficaremos cada um na sua residência. Eu decorei a minha varanda para um Natal a dois. Ficaremos eu e meu marido. Combinamos um brinde com os vizinhos. Tem sido um ano muito difícil, com milhares de vidas perdidas, mas Natal é nascimento de Cristo e precisamos celebrar de alguma forma — diz a contadora Rosana Santos, que vive em Botafogo.

No edifício da professora Daniela Guimarães, no Grajaú, os moradores se reunirão pelas janelas após um ano difícil, mas em que puderam contar uns com os outros. Ela não esquece o dia em que todos fizeram um “aplausaço” pela recuperação de um vizinho, em abril.

— Logo no início da pandemia, um vizinho nosso pegou Covid-19 e passou muito mal. Ficamos comovidos, e quando ele teve alta do hospital todos correram para a varanda e aplaudiram. Foi emocionante. Agora, no Natal, vamos nos cumprimentar pela varanda à meia-noite — conta Daniela.

Em Niterói, muitos Natais também serão desse jeito. No apartamento da oficial de náutica Camilla Costa, em Santa Rosa, a varanda é o cômodo mais utilizado.

— A interação entre os moradores tem sido muito intensa. Curtimos lives musicais, cada um no seu apartamento. Tivemos o Dia do Papai Noel com entrega de presentes. Foi bem legal, com todos acompanhando das janelas — relata Camilla, que decorou a varanda para a data com ajuda do marido, Marcelo, e do filho, Fernando, de 1 ano. — Não vou deixar, claro, de desejar um Feliz Natal aos vizinhos e amigos de quarentena.

Para a aposentada Maria Rosentina da Silva Freitas, moradora da Rocinha, as janelas ganharam novo significado. Acostumada a viver rodeada das filhas e dos netos, ela precisou se isolar da família e deixar de lado uma tradição.

— Tenho acompanhado a rotina das pessoas pela janela, e isso me ajuda a superar este momento difícil. Na noite de hoje, tradicionalmente costumamos caminhar pela comunidade e ir às casas dos amigos desejar um Feliz Natal e celebrar com eles. Mas vamos ficar apenas da janela, sem deixar de aproveitar a data — pondera a aposentada.

E, em muitos lugares, haverá música, sim, no Natal. Em Laranjeiras, o projeto “Som na janela”, do saxofonista Diogo Acosta, brindou a vizinhança com canções como “Quero de novo cantar”. Em Copacabana, Marcelo Cebukin e a atriz Tatyane Meyer já embalaram moradores em volta com “Cidade Maravilhosa”. Os vizinhos aguardam ansiosos o bis nesta noite.

No último domingo, foi ao som de piano e violino que moradores do Condomínio Vitória, na Barra, foram surpreendidos de suas sacadas com uma confraternização de fim de ano. A ideia partiu da síndica, Aline Gama. O espetáculo veio cheio de emoção: as canções foram entoadas pelas vozes de crianças do condomínio.

— A ideia é passar uma mensagem de paz e conforto para os moradores, cada um na sua casa. Nesse período complicado, de isolamento, as janelas e varandas permitem manter o contato visual. Essa confraternização é para reforçar os nossos laços. Nos sentimos como uma grande família — diz Aline.

A psicóloga Natalia Gil, do Grupo Oncoclínicas, diz que as celebrações adaptadas amenizam a melancolia de um Natal à distância. E prescreve criatividade para reorganizar o momento sem esquecer as recomendações das autoridades de saúde:

— Ligue, faça uma chamada de vídeo, celebre da varanda. Precisamos lembrar que estas são ações para um momento agudo e atípico, que vai passar. Só que, para isso acabar, cada um precisa ajudar, protegendo o outro e a si mesmo. Para termos celebração em 2021 e estarmos pertinho das pessoas que amamos, precisamos cuidar delas agora.