Moradores do Rio relatam falta d'água em vários bairros após manobra da Cedae no Guandu e volta dos efeitos da geosmina

Arthur Leal
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Moradores de diversas áreas do Rio conviveram ou ainda convivem, desde esta quinta-feira, com a falta d'água causada por mais uma manobra preventiva no Rio Guandu feita pela Cedae para tentar reduzir os efeitos da geosmina no produto que chega á casa de cariocas e fluminenses. A companhia afirma que o serviço já foi concluído e que o abastecimento deve se normalizar em até dois dias, mas, enquanto isso, muita gente está tendo que lidar com os transtornos causados pelas torneiras secas, que, em muitos casos, só se somaram ao problema que já vinha sendo enfrentado antes, do gosto e cheiro ruins de barro e turvidez.

Moradora do Humaitá, na Zona Sul, Kennia Cristina Costa, de 30 anos, conta que foi surpreendida nesta quinta, quando tentou abrir a torneira e não viu absolutamente nada saindo dela. Só no fim da tarde desse sábado a água voltou a chegar à sua casa, na Rua Viúva Lacerda, mas, segundo ela, sem pressão.

— Eu estava sem água desde ontem, e isso tem acontecido direto por aqui. Uma ou duas vezes por semana. E não é só aqui, tenho parentes na Rua João Afonso, e lá é a mesma coisa. Há cerca de um mês, também, a água, quando chega, chega com gosto ruim e às vezes com cheiro forte também. A água voltou agora, no fim da tarde, mas ainda está muito fraca, com toda a cara que vai acabar de novo — contou.

Kennia conta que, apenas ao ligar para a Cedae, foi informada sobre a manobra no Guandu. Ela diz que os transtornos, tanto nas últimas 48 horas, quanto nas outras vezes em que precisou lidar com o desabastecimento em casa, causaram inúmeros transtornos, principalmente em tempos de calor e pandemia, numa lar que divide com a filha pequena e uma pessoa idosa.

— Minha filha tem 1 ano e 6 meses e não está indo na creche por conta da pandemia. Ela se suja o tempo inteiro, brinca no quintal, fica imunda, e eu não tenho caixa d'água para ter uma reserva. Além disso, tenho cachorro, moro com uma pessoa idosa, então estou sempre tendo que usar água para cozinhar, limpar as coisas... fora o calor que está e a necessidade de mantermos a higiene por conta da pandemia — lamentou, acrescentando que, pelo bairro, tem ouvido nas últimas horas inúmeros relatos de problemas de abastecimento d'água.

Em grupos nas redes sociais, também não são poucos os relatos ainda de falta d'água nas últimas 48 horas em bairros da Zona Sul, como Jardim Botânico e Botafogo. Na Zona Norte, muita gente reclamou, também, no Grajaú e no Engenho de Dentro. O mesmo se repetiu em bairros da Zona Oeste, como Jacarepaguá.

"Até o momento, o bairro da Vila da Penha está sem água. Isso é uma vergonha. Não temos nem previsão de normalização. E nesse calor, é um desrespeito com o consumidor", escreveu um internauta, às 17h40 desta sexta-feira, numa rede social.

Morador de São Cristóvão, o estudante Luiz Felipe Miranda, de 28 anos, conta que não chegou a faltar água no —condomínio onde ele mora, na Rua Euclides da Cunha, mas o sabor, característico da geosmina, voltou a atacar.

— A água está com um gosto horrível, um gosto de terra. Dá para beber, mas é complicado, né... e no Leblon, onde eu trabalho, na Rua Aperana, fui beber água no bebedouro do prédio e também saiu esse mesmo gosto ruim de terra, que não estava antes — contou.

À reportagem, um outro morador da Zona Norte, do bairro Riachuelo, também contou que, desde quinta-feira, começou a sentir gosto e cheiro ruins na água, até que ela parou de sair da torneira, na manhã desta sexta-feira, na Rua Marechal Bittencourt.

Nas redes sociais, teve também quem brincasse com o próprio transtorno sofrido, fazendo referência ao fato de o aplicativo WhatsApp ter ficado fora do ar também nessa sexta-feira.

"Vou te falar, o povo do Rio de Janeiro sofre, hein! Não bastasse estar sem água, agora sem WhatsApp e Instagram", publicou uma moradora. "Sem água, WhatsApp e Instagram... só faltou ser sexta-feira 13", escreveu outra.

Em nota a Cedae reforçou que já concluiu a manobra preventiva no Guandu que estava em andamento desde a noite desta quinta-feira, e tinha o objetivo de renovar a água da lagoa próxima à captação da estação de tratamento.

Segundo a companhia, a ação visa evitar a proliferação de algas responsáveis pela concentração de geosmina, que, admite a empresa, vem crescendo nos últimos dias, e a operação consiste na abertura das comportas para o escoamento com maior volume e velocidade da água da lagoa. Para a medida, foi necessário interromper as atividades da estação de tratamento, que voltou a operar esta manhã. O abastecimento, esclarece a Cedae, pode levar até 48 horas para ser normalizado.

Além de manter todas as medidas para reduzir a concentração de geosmina, como a aplicação de carvão ativado, a Cedae afirma que agora iniciará o bombeamento de água do Rio Guandu diretamente para a lagoa, aumentando a entrada de água e, consequentemente, sua renovação. A instalação desta bomba está prevista para ser feita dentro de 10 dias. A companhia acrescenta que também solicitou aos laboratórios contratados a redução do prazo no envio dos resultados dos testes de controle de qualidade que são divulgados no site da companhia. Um edital da obra de proteção da tomada d'água, que acredita-se, será a solução definitiva para o problema, será publicado em até 30 dias, revelou a empresa.

Sobre o cheiro e gosto fortes, a Cedae admitiu que mesmo em quantidades muito baixas de concentração de geosmina, a partir de 0,004 microgramas/litro, já é possível sentir alteração de gosto e cheiro, apesar de, segundo a companhia, não representar risco à saúde dos consumidores. De acordo com a empresa, três fatores levam à proliferação de algas nos mananciais: água parada, presença de nutrientes e luz solar. O fenômeno ocorre com maior frequência no verão, exigindo medidas preventivas para manutenção da qualidade da água que sai das estações de tratamento.

Veja alguns dos informes da Cedae aos consumidores durante estas 48 horas:

Nesta quinta-feira, Ministério Público e Defensoria Pública do Rio conseguiram na Justiça uma decisão favorável ao pedido para que a Cedae apresente uma relação clara e detalhada das reclamações dos consumidores que, afirmam os órgãos, relatam falta d'água ou desconformidade com os padrões de potabilidade previstos pelo município do Rio, entre os dias 20 de dezembro e 1º de março. A 8ª Vara da Fazenda Pública determinou que a empresa apresente o georreferenciamento das reclamações e um relatório explicativo sobre a forma, circunstâncias e método utilizados para a análise dos parâmetros de gosto e odor da água fornecida pela companhia. Os dados devem ser apresentados em um prazo de 72 horas, sob pena de multa diária de R$ 50 mil por descumprimento.

No último dia 4 de fevereiro, o Gaema/MPRJ e a Defensoria ingressaram com um pedido de cumprimento provisório de tutela de urgência, contra a Cedae, enfatizando que um abastecimento regular e adequado pressupõe fornecimento de água que atenda aos padrões legais de potabilidade determinados pelo Ministério da Saúde. De acordo com o documento, é destacado que a entrega de uma água com forte gosto, cheiro e cor coloca em xeque padrões básicos de expectativa de fornecimento do insumo, notadamente quando contraria os parâmetros regulamentares.