Moradores de São Paulo entram no clima verde e amarelo da Copa

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Copa do Mundo 2022 começará no próximo domingo (20), no Qatar, mas o clima já está presente nas ruas de São Paulo, em forma de pintura, bandeira e fitas em verde e amarelo. Foi o que a reportagem observou última semana, quando circulou pelos bairros Jardim Arantes (zona leste), Perus (oeste), Jardim Miriam (sul) e Bela Vista (centro).

Pelo menos para os moradores da rua Cândido Afonso de Camargo, em Perus, o gari Sebastião Procópio Soares, 56, conhecido como Tião, é o símbolo da Copa.

Desde 10 de outubro, ele e um grupo de moradores espalham o verde e amarelo por todo lado, nas guias e no alto, onde as fitas formam o desenho da bandeira brasileira. Aos domingos e nos momentos de folga, Tião trabalha na ornamentação caracterizado.

"Eu pinto o rosto, o cabelo, e uso roupa e sapato também pintados de verde e amarelo. Pra mim Copa é alegria", diz. Ele garante que a rua Cândido Afonso de Camargo ficará pronta até o início do Mundial.

Por lá, as comemorações para o evento começaram em 1994, segundo afirma o cabeleireiro Paulo Sérgio Soares, 47, morador há 33 anos. Como a rua ainda era de barro, só recebia fitas de retalhos de tecidos. Em 2002, quando foi asfaltada, os moradores a coloriram pela primeira vez.

Nas Copas, o local se transforma num salão de festas, com samba, churrasco e, claro, o futebol. Ao final das partidas, os moradores fazem a "volta olímpica".

"Independente do resultado do jogo, mesmo se perder, nós saímos batucando, cantando músicas relacionadas à Copa e sambando pelo quarteirão. Até quem não gosta de futebol participa. Aqui o que vale é a amizade", conta Soares.

Existe até uma camiseta confeccionada especialmente para a Copa do Mundo. Nela está escrito "Rua da Copa Perus-SP".

Um grupo de WhatsApp foi o ponto de partida para a organização das festividades do Mundial na avenida Santo Afonso, no Jardim Miriam. O primeiro trecho da via, que é bastante movimentada, ganhou o brasão e a bandeira da seleção brasileira, a mascote e as tradicionais fitinhas.

"Cada um deu o que tinha em casa, como tintas e as fitas, e uma contribuição em dinheiro. Os moradores e trabalhadores da avenida colocaram a mão na massa com os desenhos e pinturas. É como se fosse o espírito natalino", explica o barbeiro Rodrigo Martins Borges Ferreira de Souza, 31, que mora e trabalha no local. "A Copa traz bastante união. Se tem vizinhos que por algum motivo não se falam, voltam a conversar porque se juntam para pintar a rua no final de semana", comenta.

Na rua Miguel Fernandes, no Jardim Arantes, a decoração para a Copa é quase uma novidade. Moradores afirmam que a de 2018 foi a primeira e teve pouca festa. A deste ano promete ser diferente. A organização começou, animada, há cerca de 20 dias.

Segundo João Victor Lima Brito, 19, os trabalhos, que também acontecem durante algumas madrugadas e finais de semana, serão finalizados até domingo, com a pintura da taça tão desejada pelas 32 seleções. Cada morador contribuiu com R$ 20.

Ao primeiro jogo do Brasil, no dia 24 de novembro contra a Sérvia, os moradores pretendem assistir juntos. O estudante Guilherme Ferreira, 20, lembra da importância do espírito de colaboração. "A Copa também trouxe para nós a união e a harmonia. Todo mundo ajudou dentro das suas possibilidades."

Na rua Maria José, Bela Vista, a pintura para a Copa do Mundo é feita desde 1998. O fato de o local estar inserido no programa Ruas de Lazer facilita a participação das crianças e o incentivo para que elas deem seguimento na tradição. Cerca de 120 crianças frequentam a rua.

"Nós perdemos um pouco essa tradição de Copa do Mundo. Talvez, ainda não conseguimos mostrar para as crianças que elas são a continuidade não só do programa, mas também das atividades da Copa", diz o comunicador social e coordenador do conselho comunitário da rua, Antonio Barbosa Detoro, 44.

O engajamento é coletivo. Além dos moradores, as empresas, os comerciantes e frequentadores da rua colaboram com a doação de tintas, bandeira e rabiola. A criançada ajuda na pintura das guias e nos desenhos.

A expectativa é que até domingo a via ganhe a pintura da bandeira brasileira no trecho onde muitos dos moradores, quando pequenos, jogavam bola.

Para Rafael Guimarães, monitor de Esportes do Sesc Campo Limpo, na zona sul, a Copa é uma excelente motivação para se manter a cultura do futebol. "As crianças são parte integrante da comunidade e se divertem auxiliando na pintura e nos desenhos", aponta o educador.

A unidade vai oferecer uma oficina de pintura de ruas entre os dias 22 e 27 de novembro.

Gratuita e dirigida a dois públicos --do dia 22 a 25 para quem já está inscrito nos programas Curumim e Esporte Criança e nos dias 26 e 27 para todas as crianças de 6 a 12 anos--, a atividade Pinta a Rua terá a orientação de arte-educadores.

Na capital paulista, de acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), as solicitações para interdições de ruas são analisadas como eventos, de acordo com a legislação vigente. Se a via for residencial não há necessidade de interdição.

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, as decorações não podem interferir na sinalização de trânsito, seja ela horizontal, de semáforos ou vertical.