Moradores temem novo desastre em local atingido por chuvas em Pernambuco

*Arquivo* RECIFE, PE, 17.11.2022 -  Vista geral de Jardim Monte Verde, local mais afetado por mortes nas chuvas de maio e junho de 2022, entre Recife e Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco - (Foto: Leo Caldas/Folhapress)
*Arquivo* RECIFE, PE, 17.11.2022 - Vista geral de Jardim Monte Verde, local mais afetado por mortes nas chuvas de maio e junho de 2022, entre Recife e Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco - (Foto: Leo Caldas/Folhapress)

RECIFE E JABOATÃO DOS GUARARAPES, PE (FOLHAPRESS) - O medo de uma nova tragédia provocada por fortes chuvas ainda deixa os moradores de Jardim Monte Verde aflitos. Quase seis meses depois, a comunidade localizada entre o Recife e Jaboatão dos Guararapes (PE) ainda tem casas em áreas de risco, barreiras sem proteção e imóveis não demolidos em zonas de perigo.

As mudanças climáticas foram responsáveis por intensificar os temporais que aconteceram na região Nordeste em 2022, mostra estudo revelado pela Folha de S.Paulo. Além de Pernambuco, a Bahia também teve enxurradas neste ano.

As fortes chuvas provocaram 129 mortes entre o final de maio e o início de junho em Pernambuco. Jardim Monte Verde foi o local mais afetado pelo desastre, com ao menos 21 óbitos —que, segundo especialistas, poderiam ter sido evitados se houvesse planejamento, aplicação efetiva de recursos e prevenção na área de risco. Outros estados como Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe também foram atingidos.

Sem o aquecimento global, os eventos ocorridos seriam um quinto menos intensos, segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo.

Entre os moradores de Jardim Monte Verde, a sensação predominante é de abandono por parte do poder público. Rosângela Maria do Nascimento, 42, está desempregada e depende do Auxílio Brasil e de atividades extras para viver. Além da dificuldade do dia a dia, tem o percalço do pós-chuvas no bairro onde mora.

Por causa do desastre de maio, ela teve que deixar a sua residência, que foi considerada em situação de risco pela Defesa Civil. Nas últimas semanas, Rosângela optou por voltar para casa. Alega que não tem mais dinheiro para arcar com o aluguel do imóvel no qual estava.

"Ninguém vem resolver o que vai fazer, e fica cada um querendo voltar para a sua casa e sem receber nada. Paguei R$ 300 por mês [de aluguel] e, em agosto, voltei para a minha casa", diz. "Estamos à mercê das baratas."

Moradora do local há mais de 20 anos, Rosângela circula diariamente pelo bairro com o filho José Carlisson Oliveira da Silva, 5. Os dois voltaram para a residência, mesmo diante das condições de perigo com novas chuvas.

Além do medo, a dona de casa supera a dor da perda de 12 parentes na tragédia das chuvas. A maior preocupação dela é quanto ao período chuvoso do próximo ano, tradicionalmente entre maio e julho.

Outra queixa dos residentes da localidade é um possível impasse de ações entre as prefeituras do Recife e de Jaboatão dos Guararapes. Como Jardim Monte Verde fica na divisa das duas cidades, os moradores dizem que há uma dificuldade de acesso a serviços e se queixam de transferência de uma cidade para outra sem solução.

"Até a tragédia, a gente era [do] Recife. Depois, ficamos sabendo que [aqui] era Jaboatão. Na conta de luz, vem [com o endereço do] Recife. Na de água, de Jaboatão", diz o motorista de transporte coletivo Reginaldo Ramos Feitosa, 55.

Feitosa está afastado do trabalho desde que a filha, Thaís Regina, 31, morreu soterrada. A jovem era recém-formada em engenharia. Ele ficou sem condições psicológicas de retornar ao volante.

Na manhã da tragédia, Feitosa, a esposa e a filha estavam em casa. Em segundos, a residência foi abaixo junto com a barreira.

O motorista faz sessões de acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. Dependendo dos diagnósticos da próxima sessão, ele poderá retornar à atividade laboral.

"A gente estava se programando para sair daqui, minha filha tinha começado a trabalhar há 15 dias. O sonho dela foi interrompido", afirma Reginaldo, que ficou soterrado em meio aos escombros, mas sobreviveu. A esposa dele ainda se recupera de uma fratura no joelho provocada pelo deslizamento.

Diversos moradores ouvidos pela reportagem em Jardim Monte Verde se queixam de falta de acesso à água da Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento). Eles dizem que a conta de luz está em dia e que chega normalmente, diferente do fornecimento de água.

"A gente vai se virando com a água que a vizinhança cede para a gente. As pessoas que têm poço [doam]. A Compesa vive cobrando, estou me sentindo constrangido", alega João Francisco da Silva, 37, que está desempregado e faz serviços temporários para assegurar renda.

Já a construção de muros de proteção às barreiras e de restauração de residências ainda não aconteceu, conforme os moradores.

"Quando chove, ninguém dorme. É todo mundo saindo das suas casas, tirando carros das garagens com medo de a barreira descer e levar tudo. Um cenário de horror com todo mundo em pânico, estamos traumatizados."

Jardim Monte Verde é caracterizado por diversas casas de um pavimento ou imóveis com primeiro andar. Há uma área mais estável, sem ligação com as barreiras, e outras que ficam fixadas nos morros ao redor.

No entanto, o risco se faz presente entre pessoas com residências nos dois grupos, já que, quando aconteceu o desastre de maio, a força do deslizamento arrastou casas que estavam nas encostas e levou junto parte dos imóveis com alicerce em terra plana.

Para o pesquisador Lincoln Alves, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), investimentos em alertas precoces e em sistemas de governança do local podem ajudar a prevenir possíveis novos desastres.

O foco no curto prazo, segundo o cientista, deve ser orientar as pessoas sobre como reduzir os riscos que correm diante de potenciais danos em novos eventos climáticos extremos. Alves é um dos autores da pesquisa sobre a potencialização dos danos devido às mudanças climáticas.

"É uma população pobre, com infraestrutura muito vulnerável aos fenômenos extremos. É fundamental que o poder público olhe por dois aspectos: informar com antecedência para que as pessoas tenham uma gestão de risco e, a longo prazo, fazer a melhoria da infraestrutura, envolvendo qualidade das casas, saneamento, estradas."

Lincoln Alves ainda pontua que as políticas ambientais e climáticas das cidades devem estar alinhadas às do governo federal para uma maior efetividade das ações das gestões públicas.

"As cidades precisam se conectar à política nacional. A meu ver, há uma desconexão das políticas locais com as políticas nacionais atualmente".

Em nota, a Prefeitura do Recife disse que fará investimentos nas comunidades de Jardim Monte Verde e Vila dos Milagres, outro local afetado pelas chuvas de maio e junho. "As barreiras serão reestruturadas e ganharão serviços de contenção e drenagem", diz. A gestão municipal não informou prazos.

A prefeitura afirmou que faz ações de contenção definitiva de encostas em 30 áreas de risco da cidade, com investimentos na ordem de R$ 60 milhões. Disse também que há duas obras de contenção de encostas já iniciadas na localidade, e outras ruas já foram beneficiadas.

A Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes alegou, por meio de nota, que entregou em outubro cinco muros de arrimo. A gestão também promete que outras 121 obras serão iniciadas na primeira semana de dezembro no município. Dessas, 39 serão em Monte Verde, segundo a administração.

A prefeitura não detalhou se as obras de Monte Verde estão entre as que começarão no início de dezembro.

A administração de Jaboatão também disse que "encaminhou pedido para construção de 308 imóveis ao governo federal para as famílias que tiveram seus imóveis destruídos ou precisam ser demolidos, mas ainda aguarda avaliação" e que conclui "programa específico voltado para as áreas de risco, que deverá ter seu piloto em Jardim Monte Verde".

A reportagem procurou a Compesa, mas não recebeu resposta sobre a falta de água apontada por alguns moradores de Jardim Monte Verde.