Morando na Espanha, brasileiro Manex Silva debuta com esqui nos Jogos de Inverno

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Manex Silva durante os Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude em 2020 (Foto: Dominika Zarzycka/NurPhoto via Getty Images)
Manex Silva durante os Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude em 2020 (Foto: Dominika Zarzycka/NurPhoto via Getty Images)

O esquiador Manex Salsamendi Silva nasceu no Acre, filho de mãe brasileira e pai espanhol. Manex é um nome de origem basca. O país Basco é uma região da Espanha onde mora desde os dois anos. Foi aos oito lá nos Pirineus (cadeia de montanhas entre a Espanha e a França na península ibérica) que aprendeu a esquiar com seu pai. Com apenas 19 anos, o jovem hispano-brasileiro conquistou uma vaga no esqui cross-country para a disputa dos Jogos Olímpicos de Inverno que acontecem em fevereiro na capital da China.

Para ir à Pequim, superou o duelo contra o veterano paulista Steve Hiestand, de 37 anos, oriundo do remo e criado nos Alpes suíços. A classificação foi baseada no melhor ranqueamento pelos critérios da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve). Além dele, estará nesta modalidade a veterana Jaqueline Mourão (8 olimpíadas. Bruna Moura, de 27 anos, seria estreante na categoria, mas sofreu um acidente no caminho para o aeroporto e não poderá participar dos Jogos.

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Manex vive na Europa, mas tem conexão sentimental forte com o Brasil, tanto que diz “sentir falta da tradicional comidinha do país”.

Ele debuta em competições adultas. No entanto, traz na bagagem a rodagem: ele foi o melhor sul-americano nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2020, em Lausanne, na Suíça [top 40] e quebrou a barreira dos 100 pontos FIS (Federação Internacional de Esqui) ano passado. Ele quase chegou à final do Mundial de 2021 em Oberstold, na Alemanha, desempenho que o animou pelo amadurecimento.

Nas Olimpíadas de Inverno serão disputadas as provas do esqui alpino e do cross-country. Este, do qual Manex é competidor, foi criado no século 18 e os competidores encaram grandes distâncias com o objetivo de completar no menor tempo possível. Conhecido como maratona da neve, alguns percursos variam de 2 a 50 km. Originária da Escandinávia, a modalidade foi disputada pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em 1924 na cidade de Chamonix, na França. É dividida em duas classes: Distance (DI), de longas distâncias, e a Sprint (SP), de curta distância e circuitos de até 2 km. Na DI, os atletas devem competir individualmente contra o relógio ou entre si. Já nas provas de velocidade os esquiadores devem participar de baterias eliminatórias de curta distância até chegar à etapa final. Nos últimos Jogos, em PyeongChang, na Coréia do Sul, foram disputadas 12 tipos de provas diferentes.

Os equipamentos para praticar o esqui variam de acordo com a neve, terreno e características físicas do esquiador. Além dos esquis, utilizam-se bastões de grafite e kevlar e as fixações de esqui (ligações). As botas são escolhidas de acordo com o estilo clássico ou livre para oferecer melhor mobilidade. A roupa deve ser de lycra de forma a permitir a movimentação do corpo e aquecer.

Estudante de ciência do esporte

Obter a vaga sem dúvida foi uma grande conquista de Manex diante de um rival que compete no adulto. Em uma de suas últimas competições disputadas antes do evento, ficou com o oitavo lugar no Sprint livre da prova regional júnior disputada em Zweisimmen, na Suíça. Parou na semifinal, cujo vencedor foi o atleta da casa Fabrizio Albasini. Steve Hiestand terminou nas quartas-de-final, ficando com a 30ª colocação no adulto.

Apesar de ter avançado ao longo dos anos, Manex Silva diz estar longe do nível top mundial. Segundo o exigente atleta, “Os Jogos serão bons para experiência, servirão de motivação para seguir trabalhando para o futuro”. Franco, diz ser muito jovem e não ter chances de disputar medalhas nesta edição dos Jogos de Inverno.

Cursando Ciências Física e do Esporte na Catalunha, Manex passou a ser atleta olímpico graças a ter conhecido a esquiadora brasileira Mirlene Picin (não conseguiu vaga). Ela permitiu que chegasse à CBDN, pois por ser muito jovem na Espanha só são oferecidas oportunidades a adultos de altíssimo rendimento. Através do contato estreitado com a entidade permitiu maiores oportunidades de competir.

Yahoo Esportes: Qual o primeiro esporte que praticou e influência de quem?

Manex Silva: Diria que foi o futebol, porque é o esporte mais praticado do mundo e eu e meus amigos gostávamos muito.

Entre provas de Sprint e Performance, qual você é melhor?

No Sprint, na prova de 1,5 km.

Como você mantém seu orçamento?

Atualmente estudo. O esqui cross-country é pouco conhecido no Brasil, então não existe ajuda econômica. Não dá para viver só como atleta. Recebo apoio de marca de materiais e a CBDN oferece bolsa-atleta e me apoia nos treinos e competições. Não tenho patrocinadores. Acho que essa oportunidade de ir para os Jogos Olímpicos pode abrir algumas portas e dar mais visibilidade à modalidade. Seria muito importante ter patrocinadores para poder continuar melhorando meu rendimento e chegar ao nível dos melhores do mundo.

Quais são os melhores do mundo no cross-country?

Atualmente são os noruegueses e os russos.

A pandemia atrapalhou a preparação? Você tem técnico?

Sim, pois limitou bastante os lugares onde poderíamos treinar, as viagens e muitas competições foram canceladas. Meu treinador é o Julen Garjón, do País Basco também.

O esqui cross-country é um esporte caro?

Se for para praticar em nível principiante eu acho que não muito caro. Obviamente é mais caro que correr ou jogar futebol. Mas se for para competir é um esporte muito caro. Precisa de muitos pares de esquis (porque têm diferentes tipos de neve e a velocidade do esqui vai mudando dependendo dela), as botas têm custo elevado, e o mais importante, tem que viajar para os lugares onde as condições de neve são boas para poder treinar bem. Além dos locais de competição serem longe de casa. E por isso que toda ajuda de patrocinadores seria bem vinda para poder continuar evoluindo.

Você recebe preparação especial para as provas?

Tenho um nutricionista que me diz o que eu tenho que comer dependendo do tipo de treinamento e competição. Já preparação emocional não faço nenhuma específica.

E a China? Está acostumado aos rígidos protocolos que terá pela frente neste país oriental?

Não, nunca fui. Ano passado no Mundial de Esqui tivemos um protocolo restrito sobre os testes de covid-19. Mas desta vez será maior ainda.

Como foi a adaptação às condições de frio?

Desde pequeno moro na Espanha, por isso estou acostumado. Mas é verdade que sofro um pouco nas mãos quando estou esquiando e faz muito frio. Tive a sorte de não ter nenhuma lesão grave.

Qual seu ídolo na vida ou exemplo de esportista?

Ele é o espanhol Kilian Jornet, que é ultramaratonista de montanha e atleta de esqui alpino (quebrou recorde recente com 24 horas 2.3864 metros, dando 51 voltas em pistas iluminadas na área de esqui de Tusten, em Molde, na Noruega).

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