Morar nas ruas, uma história que se multiplica em São Paulo

·4 minuto de leitura

Inquieta, Alana persegue um cachorrinho enquanto sua mãe, Mônica Silva França, sacode um colchão velho dentro de sua nova "casa", construída com lona preta sobre carrinhos de reciclagem. Sem dinheiro para pagar o aluguel, elas foram morar em uma praça no coração de São Paulo.

Há uma semana o dono do quarto onde moravam, no centro da capital, dobrou o preço da hospedagem. Entre abrigo e comida, Mônica preferiu que suas três filhas, de doze, nove e dois anos, fossem dormir sem fome.

“A gente vai viver só pagando casa, a gente vai viver só pra alimentar a casa? A gente não enche a barriga, né?, questiona a mulher, de 33 anos, na Praça da República, para onde retorna todas as noites depois de vender o material reciclável com o qual ganha a vida.

Histórias como esta se multiplicam nas ruas da metrópole de 12 milhões de habitantes, onde o aumento do desemprego devido ao impacto econômico da pandemia e o alto custo da moradia fez com que muitas famílias ficassem desabrigadas, segundo especialistas.

Sem números oficiais, ONGs alertam que a pandemia intensificou o aumento de moradores de rua e provocou uma mudança no que diz respeito ao perfil tradicional dessa população: mais famílias e mais mulheres com filhos.

- Mudança de perfil -

"O aumento das pessoas que estão chegando pela primeira vez às ruas tem sido muito forte", explica Kelseny Medeiros Pinho, coordenadora pedagógica da Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama, da Universidade de São Paulo, que atende esse público.

"Se você perde [o emprego] e você não tem outra alternativa, a rua acaba sendo a solução", acrescenta, considerando insuficiente a ajuda concedida pelo governo de Jair Bolsonaro, que passou de 600 reais em 2020 para R$ 150 em 2021.

O presidente e o governo estadual vetaram projetos para evitar despejos durante a emergência sanitária. No estado de São Paulo, até o dia 6 de junho, 3.970 famílias foram retiradas de suas residências, de acordo com a campanha Despejo Zero.

Figura conhecida do Movimento Nacional da População de Rua, Anderson Lopes Miranda diz que nos trinta anos que viveu a céu aberto, "nunca" viu uma situação como a atual.

"Mudou o perfil, antigamente era idoso, eram muitos idosos, as famílias jogavam esses idosos na rua e trabalhadores que perdiam o trabalho e iam para a rua. Não eram mulheres com crianças... Hoje você vê famílias", diz o homem de 45 anos.

O último censo oficial, em 2019, contabilizou 24.344 moradores de rua, número que as organizações civis consideram inferior à realidade. Entre eles, 85% eram homens.

Mônica e suas três filhas, as duas mais velhas pediram para não ser identificadas, agora fazem parte do grupo que surpreende Anderson.

As quatro dividem um colchão surrado emprestado por um "vizinho" da Praça da República.

O homem, chamado André, cuida de seus poucos pertences - roupas e alguns brinquedos - enquanto vão à escola, ao trabalho ou tomar banho em banheiros públicos.

- A 'normalidade' -

Assim como muitas famílias em sua situação, Mônica prefere dormir na rua a ir para um abrigo público, onde teme ter que conviver com dependentes químicos ou pessoas potencialmente violentas.

"Eu tento levar uma vida normal, né? Tomar banho, levar as crianças para a aula", afirma Mônica. "Você acorda e tipo assim, com uma aparência não muito boa, né?... Todo mundo te olha".

"Meu medo é (...) ficar doente e não estar com elas", desabafa.

Para ficar "mais tranquila", as meninas a acompanham na busca por material reciclável, uma atividade que ela realiza desde criança junto com o pai e que rende entre 20 e 30 reais por dia.

"Eu me imagino, sim, fora da rua. A gente tem que fazer nossa parte, não ficar chorando", afirma.

A poucas quadras da Praça da República, Márcio Machado, da Igreja Mundial do Poder de Deus, lidera a distribuição de 800 refeições na Praça da Sé, o dobro do número entregue antes da pandemia de covid-19.

As famílias costumam deixar o local rapidamente, um ambiente hostil e tradicional ponto de concentração dos moradores de rua. Alguns ficam famintos devido à velocidade com que os alimentos acabam.

“O número, a cada dia, você pode perceber, é um número gritante. Hoje vamos servir aqui quase mil cafés da manhã. São homens, mulheres, crianças, famílias inteiras vindo pras ruas. Ou seja, uma situação terrível", garante Machado.

Diante do aumento de pessoas pedindo comida e sem casa, a prefeitura instalou 2.393 novas camas e ampliou a entrega diária de alimentos de 7.500 para 10.000.

“Meus filhos me preocupam”, afirma Daniela Rosaneves, de 24 anos e grávida de sete meses. Ao lado dela, o filho de quase dois anos brinca com um pedaço de banana. Já são três meses vivendo sem um teto.

raa/mel/jc/mvv

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos