De Moro a Aras, livro retrata bastidores da ascensão e queda da Lava-Jato

Poucos fatos tiveram tanta influência e repercussão na História recente do Brasil quanto a Operação Lava-Jato. Foram quatro anos consecutivos de investida contra a corrupção, até a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro, com a adesão ao governo do ex-juiz Sergio Moro. A partir de então, uma sequência de acontecimentos e decisões deram início ao desmonte de uma iniciativa que, no auge, prometia ser o divisor de águas no trato ao dinheiro público no país.

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As movimentações e os interesses das principais figuras envolvidas na ascensão e queda da operação estão no livro “O fim da Lava-Jato”, dos jornalistas Aguirre Talento e Bela Megale, que será lançado pela Globo Livros no dia 29, em Brasília.

Envolvida desde o início na apuração da Lava-Jato, a dupla remonta com precisão a sequência de atos determinantes para o fim da operação, revelando detalhes e bastidores de como as instituições foram atingidas, reagiram e sucumbiram à engrenagem de proteção formada por forças políticas e aos seus próprios erros.

O livro começou a tomar forma ainda em 2020, com o desenrolar da situação de Moro, que entrou na política e logo passou a enfrentar um processo de fritura e descrédito, dentro e fora do governo, seja com a oposição direta de Bolsonaro ou com o ataque cibernético aos arquivos de conversas com os procuradores da força-tarefa.

— Achamos que a história tinha de ser mais bem contada. Tínhamos uma série de bastidores sobre o processo de acabar com a Lava-Jato, tanto pelos méritos quanto pelos abusos que foram cometidos, e que deram espaço para contestar a atuação dos procuradores e do próprio juiz — afirma Bela Megale, colunista do GLOBO.

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Ela lembra que o livro conta como, ainda durante as eleições de 2018, Moro chamava a atenção de colegas da Justiça Federal de Curitiba ao tentar amenizar o discurso do então candidato Jair Bolsonaro.

Não demora, porém, para surgir nas páginas do livro um Bolsonaro enciumado com a popularidade de seu ministro, desconfiado e cobrador de proteção à sua família, mais do que qualquer projeto que pudesse ser desenhado na área anticorrupção ou de segurança pública. O livro mostra ainda um Moro desanimado, mas durante muito tempo esperançoso de que o chefe buscasse uma saída honrosa para se livrar dele.

Um dos méritos do trabalho dos jornalistas, que fizeram mais de 50 entrevistas e se debruçaram sobre arquivos, é mostrar como a ambição pessoal do procurador-geral da República, Augusto Aras, candidato desde sempre a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), serviu para ajudar a implodir alicerces da independência do Ministério Público Federal (MPF).

A começar pelo fato de ter corrido por fora da lista tríplice da categoria para disputar o cargo de procurador-geral, acenando justamente aos desejos da classe política e a fantasmas lançados por Bolsonaro, que via também no MPF uma infestação de “esquerdistas”.

E, quem diria, um almoço num restaurante em Brasília, especializado em carnes nobres, abriu a Aras as portas para uma sequência de oito encontros com o presidente Bolsonaro, suficientes para transformá-lo na “voz conservadora” capaz de reproduzir a Procuradoria-Geral da República (PGR) à semelhança do novo governo.

A gestão de Aras, escreveram os jornalistas, queria implodir a Lava-Jato e usar a estrutura da PGR para atacar inimigos políticos do governo Bolsonaro.

— Aras teve um papel muito importante para blindar Bolsonaro e desmontar a estrutura da Lava-Jato. A partir do rompimento de Moro com o governo, vemos uma mudança muito forte na PGR — explica Talento, repórter especial do GLOBO em Brasília.

Num Brasil onde partes de sua História foram alteradas ou até apagadas, o relato dos dois jornalistas sobre o período recente do país ajuda a compreender como instituições de Estado e forças políticas se entrelaçam para desenhar um futuro que está logo aí.

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