Moro diz a colegas que se inspirou em italiano para deixar toga

FREDERICO VASCONCELOS E DENISE PEROTTI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O juiz federal Sergio Moro enviou mensagem aos magistrados da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) em que revela ter se inspirado no juiz italiano Giovanni Falcone, da Operação Mãos Limpas, para decidir trocar a toga pelo comando do Ministério da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL).

Moro diz que foi uma decisão muito difícil, "mas ponderada".

"Lembrei-me do juiz Falcone, muito melhor do que eu, que depois dos sucessos em romper a impunidade da Cosa Nostra, decidiu trocar Palermo por Roma, deixou a toga e assumiu o cargo de Diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça, onde fez grande diferença mesmo em pouco tempo. Se tiver sorte, poderei fazer algo também importante", escreveu.

Falcone foi um dos responsáveis por deflagrar a Operação Mãos Limpas na Itália e trabalhou contra a máfia siciliana Cosa Nostra. Reconhecido internacionalmente, recebeu prêmios por sua imparcialidade.

Foi ele quem convenceu o mafioso Tommaso Buscetta a romper o código de silêncio da organização, em uma confissão registrada em 329 páginas.

Deflagrada em 1992, a Mãos Limpas revelou um grande esquema de corrupção envolvendo vários partidos na Itália.

Considerada uma das maiores operações anticorrupção já realizadas na Europa, levou cerca de 3.000 pessoas à cadeia e investigou empresários, ministros e cerca de 500 parlamentares.

Falcone dirigiu os grandes julgamentos nos anos 80, com mafiosos apresentados dentro de jaulas, no fundo de salas construídas especialmente para estes processos, em Palermo. Centenas deles foram sentenciados à prisão perpétua.

Mas a operação também levou a uma série de suicídios de empresários e ao assassinato de Falcone, aos 53 anos, e de sua mulher, a também magistrada Francesca Morvillo.

Em 1992, o carro onde estavam o juiz e sua mulher explodiu ao passar por uma estrada que foi dinamitada por explosivos. Três guarda-costas também morreram.

O mafioso Giovanni Brusca, por ordem de Salvatore Totò Riína, ativou o detonador dos mais de 400 quilos de explosivos escondidos sob a estrada de Trapani a Palermo.

Em pouco tempo, os assassinos de Falcone foram presos e levados a julgamento. As provas obtidas contra eles levaram a novas descobertas e outras prisões.

Mas aos poucos esse impulso de combate geral ao crime organizado foi arrefecendo. A razão seria o desejo da classe política de colocar um fim aos muitos escândalos que a atingiram.

Moro concluiu a mensagem aos magistrados pedindo que "continuem dignificando a Justiça com atuação independente (mesmo contra, se for o caso, o Ministério da Justiça)".