Moro precisa ter mais firmeza ao lidar com motim de PMs, afirma Doria

JOÃO PEDRO PITOMBO
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 16.12.2019: Governador de São Paulo, João Doria (PSDB), durante inauguração do aeroporto Catarina, em São Roque, no interior de São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - ​​O governador de São Paulo, João ​​Doria (PSDB), reclamou nesta terça-feira (25) da atuação do ministro Sergio Moro e do presidente Jair Bolsonaro frente à crise na segurança pública e aos motins organizados por policiais militares em estados como o Ceará.

Classificando o movimento de “miliciamento das polícias militares”, Doria criticou duramente os motins dos policiais, chamando a mobilização de inconstitucional e antidemocrática.

Desde a semana passada, PMs do Ceará se mobilizam por reajustes salariais e paralisam parcialmente atividades de policiamento. Em resposta, o governo Bolsonaro providenciou o envio do Exército e da Força Nacional de Segurança ao estado.

“É preciso que o governo federal tenha um posicionamento melhor nesta área. Eu confio e gosto do ministro Sergio Moro, mas ele precisa ter a firmeza que tinha como juiz agora como ministro também”, disse Doria, que nesta terça-feira assistiu a desfiles de trios elétricos no circuito do Campo Grande, em Salvador.

De acordo com o governador paulista, o movimento dos policiais afronta o direito do cidadão de ser protegido pela polícia e é visto com preocupação pelos governadores dos estados.

Procurado, por meio de sua assessoria, Moro rebateu a declaração. "O governo federal está agindo para resolver o problema, dando o apoio necessário à população, conversando com os envolvidos, e não pretende discutir o assunto por meio da imprensa ou para fazer política partidária."

A declaração de Doria destoa do comportamento que o tucano vinha adotando em relação a Moro nos últimos anos, desde antes de se tornar um líder político, em 2016.

O ex-juiz da Lava Jato, por exemplo, foi condecorado em junho passado com a principal honraria do governo de São Paulo, a Ordem do Ipiranga. À época, o ministro da Justiça estava sob forte pressão diante das primeiras revelações de conversas com procuradores pelo site The Intercept Brasil.

Doria defendeu naquela oportunidade a atuação do ex-magistrado na Operação Lava Jato e, ao ser questionado, se gostaria de convidá-lo para integrar seu secretariado, disse: " "Quem não gostaria?"

O tucano tenta fortalecer seu nome como presidenciável do PSDB para 2022, ocasião em que pode ter o próprio Bolsonaro como principal adversário na campanha. Sergio Moro, ministro mais popular do governo, também é cotado como candidato a presidente, embora negue ter qualquer intenção de se lançar na disputa.

Moro visitou o Ceará na segunda-feira (24) e se reuniu com o governador do estado, Camilo Santana (PT). Na viagem, o ministro da Justiça disse que o governo federal atua para "serenar os ânimos, não para acirrar" a situação no estado.

Na quarta-feira (19), o senador licenciado Cid Gomes (PDT) foi baleado no interior cearense ao avançar em uma retroescavadeira sobre um grupo de policiais amotinados em um quartel. Ele passa bem e já recebeu alta.

Nesta terça, ao falar sobre o governo Bolsonaro, o tucano criticou também “a forma desrespeitosa” com que o presidente vem se dirigindo aos governadores.

“É hora do presidente talvez ter um mergulho na humildade e repensar um pouco o papel que ele representa para o Brasil. Ele foi eleito por quase 60 milhões de brasileiros e tem uma responsabilidade muito grande, é preciso que ele cumpra, que ele exerça essa responsabilidade”, disse.

Doria ainda se solidarizou com o governador da Bahia, Rui Costa (PT), que foi alvo de críticas do presidente de familiares como o senador Flavio Bolsonaro (sem partido) no caso da operação que resultou na morte do miliciano Adriano da Nóbrega.

“Não se pode fazer manifestações prévias sem a conclusão do inquérito. [...] O presidente Jair Bolsonaro, antes da investigação, acusar o governador da Bahia de ser o mandante de um crime, ele passou de todos os limites. Isso é inconcebível dentro de uma democracia”, disse Doria.

Também na semana passada, 20 dos 27 governadores do país assinaram uma carta em solidariedade a Rui Costa e com críticas à sugestão de Bolsonaro de zerar os impostos sobre combustíveis.

Doria foi um dos artífices desse manifesto, em que pese Rui Costa ser filiado ao PT, maior alvo de ataques do governador tucano em sua trajetória política.

Ele afirmou que convidou Bolsonaro para participar da próxima reunião dos governadores e diz esperar que ele aceite o convite: “Nós somos civilizados, administramos de forma civilizada os nossos estados. Não xingamos eleitores, não usamos as redes sociais para estigmatizar nem emparedar ninguém”.

Por fim, Doria ainda criticou as manifestações convocada para o dia 15 de março por aliados do presidente Jair Bolsonaro que terá como pauta críticas ao Congresso Nacional, ao Judiciário e aos governos estaduais.

“É mais um equívoco do governo Bolsonaro apoiar uma iniciativa como essa. Essa iniciativa a afronta à democracia. Sou totalmente contra”.