Moro se aproveita de pontos que levaram Bolsonaro ao sucesso e foge de polêmicas

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Former Brazil's Justice Minister Sergio Moro gestures during his Podemos Party membership ceremony in Brasilia, Brazil, November 10, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Ex-ministro Sergio Moro, durante evento de filiação ao podemos nesta quarta-feira (10) (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Nesta quarta-feira (10), Sergio Moro esteve nos holofotes do mundo político. O ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública se filiou ao Podemos, partido do senador Álvaro Dias e presidido por Renata Abreu.

Apesar de ter evitado se colocar no lugar candidato à presidência em 2022, Moro foi recebido pelo público e pelos novos colegas de partido aos gritos de “Brasil pra frente, Moro presidente”. Além disso, o ex-juiz discursou como candidato.

O discurso de 10 páginas foi preparado previamente. As bases da fala de Sergio Moro são similares ao que pregada o candidato Jair Bolsonaro, em 2018. Os principais pontos em comum são:

  • Se colocar como um outsider da política

  • Se posicionar contra a corrupção

  • Criticar a reeleição para cargos legislativos

  • Usar símbolos nacionalistas

Ao mesmo tempo, Moro – que pareceu um genuíno político ao discursar para uma plateia apaixonada – também teve um cuidado: fugir de pautas polêmicas, tão caras ao presidente Jair Bolsonaro. O ex-juiz defendeu os jornalistas e criticou ataques contra a imprensa. Além disso, Moro focou na questão da inclusão e da diversidade.

Similaridades com Bolsonaro

Brazil's President Jair Bolsonaro gestures near Brazil's Justice Minister Sergio Moro during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil December 18, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Sergio Moro foi escolhido por Jair Bolsonaro como ministro da Justiça e Segurança Pública ainda em 2018 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Moro utilizou-se das táticas bolsonaristas, mas divergindo nos termos “ideológicos” (ou até “olavistas”) do presidente e de partidários fiéis. A tentativa de construção de uma “terceira via” por Moro é feita de forma profissional, sem acasos ou coincidências.

Outsider da política

Moro começou seu primeiro discurso como político dizendo justamente que é novato neste mundo: “Eu confesso que estou um pouco ansioso quanto a falar hoje neste palco. Não tenho uma carreira política e não sou treinado em discursos”. Em seguida, evocou uma crítica de opositores a ele. “Alguns até dizem que não sou eloquente e não gostam da minha voz...”

O ex-juiz e ex-ministro apelou para uma das principais bases da campanha de Bolsonaro em 2018, ao se colocar como uma carta fora do baralho tradicional.

Faz pouco mais de 6 anos que Sergio Moro de uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, alegando que “jamais entraria para a política”. Na intenção de não ferir antigas promessas, o ex-juiz tomou cuidado para, em nenhum momento, se autodenominar pré-candidato, apenas como alguém com boa vontade para mudar o país.

“Nunca tive ambições políticas, quero apenas ajudar. Se, para tanto, for necessário assumir a liderança nesse projeto, meu nome sempre estará à disposição do povo brasileiro. Não fugirei dessa luta, embora saiba que será difícil. Há outros bons nomes que têm se apresentado para que o País possa escapar dos extremos da mentira, da corrupção e do retrocesso”, disse já na parte final do discurso desta quarta.

A fala lembra também a de Bolsonaro, recém-eleito, quando o atual presidente alegou ter “certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Luta contra a corrupção

A demonstrator wears a mask of federal judge Sergio Moro as he holds a mask with a defaced picture depicting Brazil's former president Luiz Inacio Lula da Silva in a protest in support of Lava Jato (Car Wash) investigation in Sao Paulo, Brazil, March 26, 2017. REUTERS/Nacho Doce
Figura central da Operação Lava Jato, Sergio Moro foi o responsável por condenar o ex-presidente Lula. Decisões foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (Foto: REUTERS/Nacho Doce)

Em 2018, Bolsonaro usou a figura de Sergio Moro para reforçar a relevância da pauta anticorrupção em um projeto de governo e nomeou o ex-juiz como ministro da Justiça e Segurança Pública. Sergio Moro, grande símbolo da Operação Lava Jato, tem a si mesmo para enfatizar tal ponto.

Responsável pela condenação do ex-presidente Lula (PT), Moro evitou o nome do petista durante o discurso – e não o citou -, mas fez questão de listar os feitos da Operação Lava Jato.

“Fui juiz dos casos da operação Lava Jato em Curitiba. Foi um momento histórico: quebramos a impunidade da grande corrupção de uma forma e com números sem precedentes. Julgamos e condenamos pessoas poderosas do mundo dos negócios e da política que, pela primeira vez, pagaram por seus crimes. Mais de R$ 4 bilhões foram recuperados dos criminosos e tem uns R$ 10 bilhões previstos ainda para serem devolvidos. Isso nunca aconteceu antes no Brasil.”

No primeiro discurso de Bolsonaro no Congresso Nacional, em 2019, a corrupção esteve entre os primeiros tópicos abordados pelo presidente. “Aproveito este momento solene e convoco cada um dos congressistas para me ajudarem na missão de restaurar e reerguer nossa pátria, libertando-a definitivamente do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade economia e da submissão ideológica. Temos diante de nós uma oportunidade única de reconstruir o nosso país e de resgatar a esperança de nossos compatriotas”, disse Jair Bolsonaro na ocasião.

Todas as decisões de Moro em relação a Lula foram anuladas após o ex-juiz ser considerado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, o petista é inocente e pode concorrer à presidência em 2022, figurando como favorito nas pesquisas de intenção de voto. 

Críticas à reeleição

Assim como Jair Bolsonaro fez durante a campanha, Sergio Moro dedicou parte de seu discurso de filiação para criticar a reeleição para cargos do executivo.

“Para tanto, proponho, desde o início, a eliminação de dois privilégios da classe dirigente. O fim do foro privilegiado que trata o político ou a autoridade como alguém superior ao cidadão comum, e o fim da reeleição para cargos no poder executivo. O foro privilegiado tem blindado políticos e autoridades da apuração de suas responsabilidades. Não precisamos dele. Eu nunca precisei quando juiz ou ministro. Não deve existir para ninguém e para nenhum cargo, nem para o presidente da República”, disse Sergio Moro.

“Quanto à reeleição para cargos no poder executivo, devemos admitir que é uma experiência que não funcionou em nosso País. O presidente, assim que eleito, começa, desde o primeiro dia, a se preocupar mais com a reeleição do que com a população, está em permanente campanha política. E ainda tem o risco de gerar caudilhos, populistas ou ditadores, de esquerda ou de direita, pessoas que se iludem com o seu poder e passam a ser uma ameaça às instituições e à democracia, seja por corrupção ou por violência. Não devemos mais correr esses riscos”, justificou.

Jair Bolsonaro tinha como promessa de campanha o fim da reeleição. “O que eu pretendo é fazer uma excelente reforma política, acabando com o instituto da reeleição, que começa comigo caso seja eleito, e reduzindo um pouco, em 15% ou 20%, a quantidade de parlamentares”, prometeu, em 2018.

Sobre o foro privilegiado, o presidente chamou o mecanismo de “porcaria” em 2017, indicando mais um encontro nos discursos de Moro e Jair Bolsonaro.

Símbolos nacionalistas

Former Brazil's Justice Minister Sergio Moro speaks during his Podemos Party membership ceremony in Brasilia, Brazil, November 10, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Sergio Moro evocou símbolos nacionalistas durante ato de filiação (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Durante toda campanha eleitoral, a exaltação de símbolos eleitorais sempre fez parte da retórica bolsonarista, em especial a bandeira verde e amarela – que nunca será vermelha, segundo a promessa de Jair Bolsonaro. O slogan de campanha “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” também reforçava a relevância do nacionalismo.

Moro discursou com projeção da imagem de uma bandeira do Brasil flamulando ao fundo. E fechou o discurso com uma alusão ao hino nacional: “Pretendo atuar como um guardião vigoroso do interesse público, como um protetor dos direitos de todos os brasileiros e brasileiras. O Brasil poderá confiar que este filho teu não fugirá à luta e que jamais deixará o seu interesse pessoal, ou de seus filhos ou de sua família, ou mesmo de seus amigos ou de seu partido político, acima do interesse do povo brasileiro.”

As grandes diferenças de discurso

Há, no entanto, dois grandes tópicos que diferenciam Jair Bolsonaro e Sergio Moro, ao menos no discurso inicial do agora filiado ao Podemos. Os temas, liberdade de imprensa e inclusão e diversidade, estão mais ligados às questões chamadas de “ideológicas” do governo. O ex-juiz tratou de posicionar-se contra truculências do atual presidente, que afastam alguns moderados.

Bolsonaro é conhecido por agressões verbais e ataques contra a imprensa e contra jornalistas. Sergio Moro repudiou esse tipo de comportamento. “Chega de ofender ou intimidar jornalistas. Eles são essenciais para o bom funcionamento da democracia e agem como vigilantes de malfeitos dos detentores do poder. A liberdade de imprensa deve ser ampla. Jamais iremos estimular agressões. Jamais iremos propor o controle sobre a imprensa, social ou qualquer que seja o nome com que se queira disfarçar a censura e o controle do conteúdo. Isso vale para mim e para qualquer pessoa que queira nos apoiar.”

Moro ainda tratou da temática da diversidade e afirmou ter como objetivo construir uma sociedade plural. “Mas agiremos sempre com a compreensão de que nessa nossa sociedade cada vez mais plural todos merecem ser tratados com respeito e sem qualquer forma de discriminação. Precisamos de uma sociedade inclusiva, que acolha as diferenças, e precisamos também de uma sociedade que respeite todas as crenças e religiões.”

Construção de terceira via

Longe de parecer despreparado, Sergio Moro mostrou-se empenhado em angariar os votos da esperada (por alguns) terceira via. Criticou os pontos que alguns rejeitam no Partidos dos Trabalhadores, enquanto escapou dos pontos mais delicados do bolsonarismo.

Ainda assim, Moro tem similaridades claras com os discursos e posicionamentos de Jair Bolsonaro que atraíram a tantos e o levaram a ser eleito em 2018.

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