Audiência de Sergio Moro vira acareação da Lava Jato em comissão do Senado

Ministro Sergio Moro fala no Senado sobre as revelações do site The Intercept Brasil


Acuado pela revelação de mensagens indevidas com procuradores do Ministério Público do Paraná quando juiz, o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) passou longe, exceto em alguns momentos, de ser emparedado pelos senadores da Comissão de Constituição e Justiça nesta quarta-feira, 19.

Na sessão, o que se viu foram parlamentares levantando a bola para o ministro cortar, entre parabéns e afagos - ele chegou a ser chamado de “ídolo’ por Jorge Kajuru (PSB-GO) - ou, no caso da oposição, fulanizando o debate, como quando Humberto Costa (PT-PE) exigiu um pedido de desculpas do juiz por “cassar os votos de milhões de brasileiros” de votar no ex-presidente Lula, preso e condenado no caso do tríplex.

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Moro respondeu como quis a questionamentos como os de Costa, que acusou o ex-magistrado de ser seletivo, de levantar sigilo para a imprensa, de indicar testemunhas no processo, escolher quem deveria ser investigado e perguntou se ele estava a serviço de um projeto político.

Blindado por parlamentares governistas e do centrão, Moro ficou à vontade para dizer que a Lava Jato quebrou um ciclo de corrupção no país e se escorar em números de denúncias, condenações, apelações, absolvições (63%) e reforma de sentença em outras instâncias para tentar mostrar que:

1- não era o único responsável pelo destino dos acusados;

2- não houve conluio com o MPF.

Desde o início, a estratégia era dizer que era alvo de ataques e revanchismo em razão de sua atuação contra criminosos que assaltaram a Petrobras. Segundo ele, os ataques partem de pessoas incomodadas com o resultado da operação e que anteviam futuras condenações.

Um dia depois de gravar entrevista ao programa do Ratinho, do SBT, ele tentou o tempo todo minimizar as revelações do site The Intercept Brasil – em certo momento, chegou a dizer que “a montanha pariu um rato” e, num ato falho, disse ser alvo de um “falso sensacionalismo”.

“Cumpri o meu dever com a máxima correção. As reações eram esperadas. Só estou surpreendido pelo nível de vilania e baixeza dos responsáveis pelos ataques e pela ousadia criminosa de invadir telefones”, disse Moro, para quem a ação não visava o interesse público, mas minar os esforços anticorrupção. “Essa não foi uma conquista de um grupo de procuradores, mas da sociedade brasileira.”

Moro insistiu em dizer que foi alvo de uma ação criminosa, que não usa o aplicativo de troca de mensagens Telegram desde 2017 e que não pode atestar a autenticidade das mensagens.

Tanto o ministro como os senadores simpáticos à Lava Jato tentaram normalizar a relação (promíscua, segundo a oposição) entre juiz e as partes do processo. “Acontece o tempo todo”, disse Moro, mais de uma vez.

Confrontado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), Moro dobrou a aposta, garantiu que não tem apego ao cargo e que deixará o posto se o site mostrar o conteúdo completo das mensagens e ficar provada qualquer irregularidade.

Quando questionado sobre a relação como orientador de uma das partes, ele repetiu o mantra de que não agiu por questões ideológicas, que a operação atingiu diversos partidos, que as sentenças contra agentes políticos trouxeram a ele muitos dissabores.

Coube a um senador da Rede, o ex-delegado da Polícia Civil Fabiano Contarato, do Espírito Santo, o momento de maior enfrentamento. Contarato lembrou que aconselhar uma das partes fere o processo de isonomia do processo penal. “Fico imaginando se fosse eu mantendo contato com advogado do indiciado. Eu sairia preso da delegacia. Os fins justificam os meios?”, questionou.

Moro devolver perguntando se a operação deveria ser anulada e se o senador gostaria de ver os recursos desviados e recuperados pelos agentes públicos devolvidos.

O senador, que disse ter sido eleito enaltecendo a Lava Jato, respondeu argumentando que o ministro colocava palavras em sua boca, e que a crítica estava relacionada simplesmente à quebra de principio da imparcialidade.

Outra reprimenda veio de Eduardo Braga (MDB-AM), para quem o combate à corrupção não pode quebrar o “Estado democrático de Direito”.

Ainda assim, e apesar dos cacos inevitáveis, e do desgaste natural de ter de explicar atos e mensagens trazidas a público diante de senadores, Moro conseguiu manter a conversa na órbita da narrativa entre quem defende e quem não defende a luta contra a corrução, entre quem quer deslegitimar e quem quer enaltecer a Lava Jato – provavelmente a maior força política do Brasil, algo que o chefe do ministro, apesar de inúmeros atos condenáveis na vida pública, compreendeu, transformou em plataforma política e chamou para o casamento simbólico ao ser eleito.

Acredita na conversa dos limpinhos x corruptos quem quiser. E os que querem assim acreditar ainda são muitos.

A cautela dos senadores mostra que bater na Lava Jato e nos seus pilares, apesar de todos os abusos e limitações escancarados, é pedir para perder voto. E ninguém, mesmo em início da legislatura, quer comprar essa briga com o eleitor.


*Atualizado às 15h56