Morre aos 103 anos o poeta chileno Nicanor Parra, pai da 'antipoesia'

Por Miguel SANCHEZ
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(Arquivo) Foto da juventude do poeta chileno Nicanor Parra, exibida em Santiago, em 19 de agosto de 2014

O renomado escritor chileno Nicanor Parra, criador da antipoesia e vencedor do Prêmio Cervantes em 2011, morreu aos 103 anos, informou nesta terça-feira (23) o ministro da Cultura Ernesto Ottone.

"O Chile perde um dos maiores autores da história de nossa literatura e voz singular na cultura ocidental. Estou comovida pelo falecimento de Nicanor Parra! Meus mais profundos pêsames a sua família", disse a presidente Michelle Bachelet em sua conta oficial no Twitter.

Considerado um influente poeta do século XX, Parra faleceu esta madrugada em sua casa na comuna de La Reina, em Santiago, por problemas de saúde que não foram detalhados, mas estava consciente até o final de sua vida.

Poeta, físico e matemático, Nicanor Parra ficou famoso por sua máxima criação: a antipoesia, gênero com o qual instaurou uma linguagem caracterizada pela ironia, o léxico simples e os temas cotidianos, com o qual alcançou uma grande influência na literatura hispano-americana e o reconhecimento internacional.

A principal mostra deste movimento fica estampada em seu segundo livro, "Poemas y antipoemas" (1954). A partir daquele momento, sua rica obra seguiu com livros como "Antipoemas" (1960), "Manifiesto" (1963), "Obra Gruesa" (1969), "Poesía política" (1983), "Poemas para combatir la calvicie" (1993), "Páginas en blanco" (2001).

Em 2011, recebeu na Espanha o Prêmio de Literatura Miguel de Cervantes, o mais reconhecido da língua castelhana. Parra decidiu não viajar para recebê-lo por sua idade avançada, e enviou seu neto 'Tololo' Ugarte, um famoso pianista.

Também recebeu o Prêmio de Literatura Latino-Americana e do Caribe Juan Rulfo (1991) e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (2001).

"A única coisa que faltava a Nicanor Parra para ser imortal era efetivamente ter deixado este mundo", declarou o presidente eleito, Sebastián Piñera, que apresentava seu gabinete ministerial quando foi revelada a notícia do falecimento de Parra.

Em seu primeiro governo (2010-2014), Piñera viveu um momento embaraçoso na Feira do Livro de Santiago em 2010 ao anunciar por engano a morte de Nicanor Parra.

- Antagonista a Neruda -

Sua personalidade extravagante, refletida em opiniões irônicas e maliciosas odes a objetos e situações comuns, aproximou sua obra especialmente dos jovens, entre os quais hoje tem muitos admiradores.

Resistente ao contato com a imprensa e a homenagens, passou seus últimos anos em sua casa em Las Cruces, na costa central chilena, não muito distante da que tinha Pablo Neruda na Isla Negra, onde recebeu algumas personalidades como a presidente Bachelet, com quem comemorou seus 100 anos.

Sua obra irreverente e seu rechaço à poesia tradicionalista transformaram Parra no antagonista do trabalho de seu colega chileno e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, Pablo Neruda, com quem teve uma relação especial.

Durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), Nicanor Parra foi assinalado por manter uma postura ambígua com o regime, alimentada pelas disputas públicas com Neruda, militante do partido comunista que morreu poucos dias antes da chegada dos militares ao poder, por causas que ainda são investigadas.

- Família de artistas -

Nicanor Parra nasceu em 1914 na localidade de San Fabián de Alico, na região de Biobío (sul), no mais fecundo berço artístico que o Chile já teve.

Parra era o irmão mais velho da famosa cantora e compositora Violeta Parra, e de Eduardo e Roberto, outros dois músicos importantes no país.

A veia artística da família Parra se estendeu ao longo dos anos e contribuiu com inúmeros talentos como Angel Parra, filho de Violeta, outro grande cantor que morreu em Paris no ano passado aos 73 anos.

Seu filho, Angel Cereceda Parra, foi fundador do bem-sucedido grupo chileno Los Tres, e é reconhecido como um dos grandes guitarristas da América Latina.