Morre aos 85 Frederik de Klerk, Nobel da Paz e último presidente branco da África do Sul

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Último presidente branco da África do Sul, Frederik Willem de Klerk morreu na manhã desta quinta-feira (11), aos 85 anos, em decorrência de um mesotelioma —tipo de câncer que atinge o tecido que envolve os pulmões. A doença havia sido sido diagnosticada em março.

Segundo um comunicado da fundação que leva o seu nome, De Klerk morreu em sua casa, na Cidade do Cabo, uma das capitais da África do Sul. Deixa a esposa, Elita, e os filhos Jan e Susan.

O ex-presidente foi o último homem branco chefe de Estado no país e governou de 1989 a 1994, quando o partido de Nelson Mandela assumiu o poder. Ambos dividiram o Nobel da Paz em 1993, pelo trabalho que levou ao fim do apartheid, regime de segregação racial que durou quase 50 anos na África do Sul.

Apesar da honraria recebida, o papel de De Klerk na transição para a democracia é alvo de diversas contestações no país. Parte da população negra sul-africana o reprovava por ter sido incapaz de conter a violência política nos anos turbulentos que antecederam as eleições de 1994. Os brancos mais conservadores e radicais, por sua vez, o viam como um traidor das causas nacionalistas e supremacistas.

Sem nunca ter escondido o passado racista —ele chegou a fazer parte de uma sociedade secreta que defendia a supremacia branca—, De Klerk surpreendeu os sul-africanos quando, em 1993, pediu desculpas pelo apartheid. "Não era a nossa intenção privar as pessoas de seus direitos e causar miséria, mas a segregação e o apartheid levaram exatamente a isso, e eu o lamento profundamente", afirmou, à época.

A transição de servo do regime racista a um dos responsáveis pelo seu fim ocorreu também devido a pressões e sanções internacionais. A metamorfose lhe rendeu comparações com o líder soviético Mikhail Gorbatchov: ambos eram homens que alcançaram o auge do poder antes de mudarem ou desmontarem os sistemas dos quais foram símbolos por décadas.

Em sua autobiografia, De Klerk descreve como seus primeiros meses no poder coincidiram com o colapso da União Soviética e a desintegração do comunismo na Europa Oriental. "Em poucos meses, uma de nossas principais preocupações estratégicas se foi", escreveu. À época, uma suposta ameaça comunista assombrava os sul-africanos brancos e era usada como pretexto para algumas das ações do regime.

Com o fim dessa suposta ameaça, contou De Klerk, "uma janela se abriu repentinamente, criando uma oportunidade para uma abordagem muito mais aventureira do que se imaginava anteriormente".

O Muro de Berlim caíra havia menos de três meses quando ele discursou no Parlamento, em fevereiro de 1990, encerrando o período de banimento do Congresso Nacional Africano (CNA) —partido que hoje governa o país— e anunciando a libertação de Mandela, líder da legenda, depois de 27 anos na prisão.

De Klerk manteve a decisão em segredo de quase todos os ministros do gabinete, temendo que, se ela vazasse, provocaria uma reação dos brancos de direita, causando novas turbulências políticas no país.

Em 2006, durante a comemoração do 70º aniversário do ex-presidente, Mandela relembrou o episódio e o elogiou por dar um salto em direção ao desconhecido. "Você demonstrou uma coragem que poucos tiveram em circunstâncias semelhantes", disse.

Descendente de africâners (colonizadores de origem holandesa), De Klerk nasceu em Joanesburgo, em 18 de março de 1936. Seu pai foi membro do Partido Nacional (PN), o principal responsável pela política do apartheid. Em 1956, após ter ingressado na faculdade de direito, tornou-se membro da Juventude Nacionalista, a ala jovem do PN, e, em 1972, foi eleito deputado pela mesma legenda.

De Klerk ocupou cargos em vários ministérios, incluindo o da Educação, em que era o responsável por um sistema de ensino que gastava dez vezes mais com crianças brancas do que com as negras.

Em 1989, venceu as eleições pela liderança do partido e destituiu o então líder da legenda P. W. Botha, um dos maiores defensores do apartheid —Botha morreu em 2006, aos 90 anos, sem nunca ter demonstrado remorso pelo regime de segregação. Àquela altura, o conflito racial já havia causado a morte de mais de 20 mil pessoas negras, e a ascensão de De Klerk foi vista como uma consolidação do apartheid.

"Quando se tornou o chefe do PN, ele parecia ser o homem do partido por excelência, nada mais, nada menos. Nada em seu passado sugeriria um espírito de reforma" , escreveu Mandela em sua autobiografia.

As negociações acerca da transição democrática que se seguiram à libertação de Mandela sempre tiveram a violência política como pano de fundo, de modo que havia a sensação, à época, de que a qualquer momento a África do Sul poderia descarrilar para uma nova e sangrenta guerra racial.

O fato de um cenário mais pacífico ter prevalecido é usualmente descrito como um "milagre político", embora o quase meio século de apartheid tenha deixado raízes profundas na sociedade sul-africana.

De Klerk deixou o poder em 1994, tendo Mandela como sucessor, e em 1997 se afastou da política sul-africana.

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