Morre Claudio Willer, poeta, tradutor e divulgador da Geração Beat no Brasil

Morreu, nesta sexta-feira (13), o poeta e tradutor Claudio Willer, aos 82 anos, vítima de um câncer de bexiga. A notícia foi publicada na página do autor no Facebook. Segundo a nota, Willer, que foi um dos maiores divulgadores da Geração Beat no Brasil, passou os últimos meses internado. “Willer foi amparado por um grupo de apoio muito especial, até o fim. Seu legado fica. Que a sua jornada, a partir de agora, seja mágica e maravilhosa como a sua poesia. Obrigada, amado bruxo!”, diz o texto.

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Filho de judeus alemães, Willer nasceu em São Paulo, em 1940. Nos anos 1960, integrou uma geração de poetas que se encantou pela literatura rebelde de autores beatniks como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, os quais ele viria a traduzir posteriormente. Estudou ciências sociais e políticas na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e psicologia na USP, onde também doutorou-se em letras.

Em seus versos, Willer soube combinar o gosto dos beatniks americanos pela língua falada e pelo jazz com o surrealismo francês. Seu livro de estreia, “Paranoia”, foi classificado pelo também poeta Roberto Piva (1937-2010) como “beat-surreal”. Em 1965, ao lado de Piva e do poeta Sergio Lima, foi citado em um texto sobre o surrealismo em São Paulo publicado no periódico francês Le Bréche — Action Surréaliste, dirigido por André Breton, pai do movimento. Também participou da “Antologia dos Novíssimos”, organizada no início dos anos 1960 pelo editor Massao Ohno.

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Willer colaborou com diversos veículos da imprensa brasileira, como as revistas Veja, IstoÉ e Chiclete com Banana. Presidiu a União Brasileira de Escritores por quatro mandatos e foi assessor da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo entre 1994 e 2001. Em 2016, foi objeto do documentário “A propósito de Willer”, dirigido por Priscyla Bettim e Renato Coelho. Nos últimos anos, ministrava cursos livre e oficinas.

Como autor publicou títulos como “Um obscuro encanto: Gnose e gnosticismo na poesia moderna (Civilização Brasileira), “Rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico” (L&PM) e “Poemas para ler em voz alta” (Ibis Libris), entre outros. Também organizou uma coletânea de escrito do poeta francês Antonin Artaud. Como tradutor, dedicou-se, principalmente, a traduzir livros de autores beatniks, como “Uivo”, de Allen Ginsberg, e “Livro de haicais”, de Jack Kerouac.

No ano passado, por ocasião do centenário de Kerouac, disse ao GLOBO que o autor de “On the Road” ainda não fora compreendido em toda a sua amplitude literária.

— Ainda já há uma crítica idiota que acha que Kerouac é só literatura de viagem e não percebe a complexidade do texto dele. Kerouac soube combinar a língua das ruas com o inglês de Shakespeare e Joyce — afirmou.