Morre Doca Street, assassino de Ângela Diniz

Ivan Martínez-Vargas, Cleide Carvalho
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Sebastião Marinho / Agência O Globo (17/10/1979)

SÃO PAULO - Morreu nesta sexta-feira, aos 86 anos, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street. Ele ficou nacionalmente conhecido por ter assassinado a socialite Ângela Diniz com quatro tiros no rosto em dezembro de 1976.

A informação da morte de Doca Street foi confirmada ao GLOBO por familiares. Segundo uma de suas netas, que preferiu não se identificar, ele não estava doente e sofreu uma parada cardíaca.

O assassinato de Ângela Diniz foi um marco no movimento feminista do Brasil, que começava a tomar corpo. Muitas mulheres ficaram inconformadas com o tratamento dado à vítima, que teve sua vida devassada pela defesa de Doca Street. A tese da "legítima defesa da honra" foi usada para justificar o crime. Fosse hoje, seria feminicídio.

À época, o movimento em defesa da memória de Ângela e pela punição de Doca Street cunhou o slogan “quem ama não mata”, usado até hoje. O poeta Carlos Drummond de Andrade teria escrito em defesa dela: "Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras".

No primeiro julgamento do caso, o advogado Evandro Lins e Silva transformou Doca Street em um jovem perdidamente apaixonado, que se deixou subjugar por Ângela, mencionada como "objeto amado".

"É claro que ele vai se descontrolando em tudo o que faz, minadas as suas resistências pela paixão doentia que o avassala", afirmou diante do júri.

Para Ângela, no discurso da defesa de Doca Street, coube o papel de "mulher fatal", que levava os homens a agir "contra a própria natureza".

"Senhores jurados, a mulher fatal, encanta, seduz, domina, como foi o caso de Raul Fernando do Amaral Street", disse o advogado.

As feministas tomaram as ruas, em protesto contra a tese da defesa.

Com a repercussão do caso, Doca foi levado a um novo julgamento. Em 1981, acabou condenado a 15 anos de prisão por homicídio e cumpriu a pena.

O julgamento e a condenação de Doca Street serviram para questionar a forma machista como as leis eram interpretadas nos tribunais.

Ainda hoje, boa parte dos assassinatos de mulheres tem como criminoso o companheiro ou ex-companheiro, e o fim de relacionamentos costuma ser um dos motivos mais comuns.

Reconstituição

O caso do assassinato foi recontado neste pelo podcast "Praia dos Ossos". Em artigo na edição de setembro da revista Piauí, as idealizadoras Branca Vianna Moreira Salles e Flora Thompson-Deveaux disseram que a produção tinha por um de seus objetivos responder o porquê de Doca Street quase ter se livrado da punição pelo assassinato.

As produtoras também buscaram narrar a história da de Ângela Diniz, "mulher cuja história foi amplamente coberta pela imprensa antes e depois de sua morte, porém ainda uma personagem unidimensional na memória de quem viveu aquela época. Ela era retratada como a mulher fatal por excelência, chamada de “Pantera de Minas” pelo colunista social Ibrahim Sued e de “Vênus lasciva” que queria “a vida livre, depravada” pelo advogado de Doca Street."

"Praia dos Ossos" também quis abordar a organização de coletivos de jovens feministas que surgiram em reação a atos de violência doméstica na época. "No Rio, na ausência de delegacias da mulher, voluntárias tentavam proteger mulheres ameaçadas pelos companheiros num esquema improvisado de escolta. Eram ativistas tateando no mundo novo pós-Anistia, trilhando um caminho que levaria a conquistas jurídicas, legislativas, e culturais", diz o texto.

O crime

Ângela e Doca Street se conheceram num jantar em São Paulo e estavam juntos há apenas quatro meses. Ele largou mulher e filhos para viver com a socialite na casa dela, em Búzios, e era Ângela quem bancava as despesas. Controlador, ele passou a reprimir o comportamento de Ângela, o que provocou brigas constantes.

No dia 30 de dezembro de 1976, os dois haviam passado o dia na praia. O crime ocorreu durante uma discussão, na qual Ângela tentou por um fim ao relacionamento.

Após o crime, Doca Street deixou a arma ao lado do corpo e fugiu para Minas Gerais.

No mês passado, ele havia completado 86 anos. Ele deixa três filhos, dez netos e um bisneto.