Morre Erasmo Carlos, aos 81 anos, o gigante do rock mais gentil que o Brasil já teve

Erasmo Carlos, um dos cantores e compositores mais populares do Brasil, morreu aos 81 anos, no Rio de Janeiro, nesta terça-feira, dia 22. O artista havia deixado o hospital Barra D’Or em 2 de novembro após 16 dias internado tratando uma síndrome edemigênica. O cantor voltou a ser internado e, de acordo com informações apuradas pela TV Globo, precisou ser intubado na última segunda-feira, dia 21.

O parceiro e “amigo de fé, irmão camarada” de Roberto Carlos. O gigante gentil, com seu 1,93m de altura e coração sem tamanho. O pioneiro do rock no Brasil, com sua turma da Tijuca, que conquistou a MPB com as suas canções românticas e existenciais – simples, profundas e muito comunicativas.

Mesmo que sua voz não fosse das mais seguras ou melodiosas (e os seus acordes não chegassem muito perto daqueles que o amigo Tim Maia o ensinou na adolescência), Erasmo Carlos foi alguém que encarnou como poucos o poder da música popular – e do pop brasileiro, que ele ajudou a inaugurar com Roberto e Wanderléa no programa de televisão “Jovem Guarda” e nos filmes do Rei.

Erasmo Esteves nasceu no Rio, filho da inspetora escolar Maria Diva Esteves, que veio da grávida da Bahia e o criou sozinha (ele só conheceria o pai na idade adulta). Adolescente fã de rock, ele conheceu Roberto Carlos em 1958, quando este o procurou atrás da letra de “Hound dog”, hit de Elvis Presley, que iria cantar na televisão. Desde então, Erasmo e Roberto foram (quase) inseparáveis.

Um ano antes, Roberto tinha fundado com Tim Maia (que entregava marmitas na casa de Erasmo – às vezes com alguns pastéis subtraídos), Arlênio Lívio e Wellington Oliveira o grupo The Sputniks, desfeito em pouco tempo por causa de uma briga entre Roberto e Tim. Eles, Erasmo e Jorge Ben faziam parte, então, da turma que se reunia no Bar Divino, na Rua do Matoso, na Tijuca, para trocar informações sobre rock – e arriscar algumas canções.

Com a saída de Tim e Roberto, o Sputniks passou a se chamar The Snakes, incluindo Erasmo (que trabalhava como secretário do compositor, radialista e agitador Carlos Imperial – em homenagem a ele e Roberto, por sinal, o cantor adotou o “Carlos” em seu nome artístico). Erasmo foi tentando a vida como compositor e como cantor do grupo Renato e Seus Blue Caps, até partir para a carreira solo em 1964, gravando “Terror dos namorados”, uma das primeiras parcerias com Roberto.

Ainda em 1964, Erasmo teve seu primeiro grande sucesso, “Festa de arromba”, escrita com Roberto Carlos – assim como “Quero que vá tudo pro inferno”, gravada por Roberto e que se tornou o hino da jovem guarda, o movimento que começou em 1965, quando eles estrearam, na TV Record de São Paulo, juntamente com Wanderléia, o programa dominical de mesmo nome – um sucesso avassalador desde a primeira edição.

Erasmo gravou sucessos como “Vem quente que eu estou fervendo” (de Carlos Imperial e Eduardo Araújo), “A carta” (Raul Sampaio e Benil Santos) e “Gatinha manhosa” (mais uma sua e de Roberto) e estreou como ator em “Roberto Carlos em ritmo de aventura” (um dos filmes que faria com o Rei), seguindo na atuação em “Os machões” (1971), de Reginaldo Farias, que lhe valeu o Troféu Coruja de Ouro de melhor ator coadjuvante.

Nem tudo foi alegria para o cantor, porém, nessa época. Em 1966, ele, Eduardo Araújo e Carlos Imperial foram acusados de corrupção de menores, sendo posteriormente inocentados. No mesmo ano, Erasmo desagradou a Roberto, ao participar do programa “Show em Si...monal”, e eles romperam a parceria e ficaram quase um ano sem se falar. Sozinho, o Rei compôs sucessos como “Querem acabar comigo”, “Namoradinha de um amigo meu” e “Como é grande o meu amor por você”, mas os dois retomaram a parceria em grande estilo com “Eu sou terrível”.

Com o fim do programa “Jovem Guarda” Erasmo passou por uma crise, mas logo voltou ao sucesso com a canção existencial "Sentado à beira do caminho” e com o samba-rock “Coqueiro verde”, parcerias com Roberto. Em 1971, na gravadora Philips, lançou o seu primeiro disco adulto, “Carlos, Erasmo”, tido anos depois como um clássico, no qual gravou “De noite na cama” (de Caetano Veloso) e uma curiosa ode à maconha, “Maria Joana”, parceria com o amigo.

Ao longo dos anos 1970, Erasmo se tornou uma referência para a jovem geração do rock brasileiro, seguiu compondo com Roberto (e foi por ele homenageado na canção Amigo”). Muitas das parcerias foram sucessos com o Rei (“Detalhes”, “Cavalgada”, “Além do horizonte”, “Café da manhã”), outras com o Tremendão (“Filho único”, “Minha superstar”, “Pega na mentira”, “Mesmo que seja eu”) e algumas ainda com outros intérpretes (como é o caso de “Lembranças”, gravada com sucesso pela cantora Katia).

Atração do primeiro Rock in Rio, em 1985 (quando foi hostilizado pelos fãs do heavy metal), Erasmo aos poucos foi se afastando do mundo do disco e, nos anos 1990, padeceu com o alcoolismo e com a morte da ex-mulher, Narinha. Em agosto de 2000, ele foi internado com problemas cardíacos, ficando três dias na UTI. Mas em 2001, lançou o CD “Pra falar de amor”, inaugurando parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown (“Mais um na multidão”) e com Marcelo Camelo, do grupo Los Hermanos (a faixa-título). Uma nova geração o descobria e o resgatava.

A partir daí, Erasmo Carlos voltou a gravar discos de inéditas, como “Santa música” (2004), “Rock’n’roll” (2009) “Sexo” (2011), “Gigante gentil” (2014) e “Amor é isso” (2018), acompanhado por novos e velhos companheiros de estrada. Em 2009, lançou pela editora Objetiva o livro de memórias “Minha fama de mau”. E em 2019, viu estrear nos cinemas a cinebiografia “Minha fama de mau”, de Lui Farias, com Chay Suede, no papel principal, Gabriel Leone (como Roberto Carlos) e Malu Rodrigues (Wanderléa).

No meio do caminho, em 2014, porém, ele teve um baque com a morte do filho Alexandre Pessoal, aos 40 anos, em um acidente de moto. Em 2021, pouco antes de comemorar seus 80 anos de idade, Erasmo anunciou ter se curado de um câncer no fígado, detectado quatro anos antes. E ao lado da mulher, Fernanda (49 anos mais nova que ele, com quem se casou em 2019, depois de nove anos de namoro), pôde assistir ao documentário “Erasmo 80”, feito pelo Globoplay para seu aniversário.