Morre Eros Ramos de Almeida, aos 60 anos

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RIO — Não há quem fale do jornalista Eros Ramos de Almeida e não se lembre de duas entre tantas de suas qualidades como ser humano: a doçura e a facilidade para agregar pessoas. Como profissional, o texto impecável é outra marca registrada dele. Eros começou no GLOBO como estagiário, em 1987. No jornal, passou por várias editorias: Rio, Bairros, Segundo Caderno, Boa Viagem... E, no Rio Show, foi critico de cinema, uma de suas paixões.

Hoje, Editor de Bairros, Milton Calmon ressalta que não havia exceção: todos eram amigos do Eros

— Brincalhão, ele adorava falar e ouvir bobagens. E tinha um caráter inigualável. No início dos anos 1990, eu era redador no Segundo Caderno, e Eros foi trabalhar na editoria na mesma função, ganhando um pouco mais que eu. Quando soube, me propôs, a sério, dividir a diferença comigo — recorda Calmon.

Botafoguense “roxo”, Eros adorava futebol, acrescenta Calmon, que era seu companheiro de peladas:

— Ele chegou a jogar no lendário time de futebol de salão dos Bairros, no fim dos anos 1980. O time tinha camisa e nome: Gargalo Futebol Glub, pois sempre saíamos para beber depois das peladas no Liceu de Artes e Ofícios, perto da Redação.

Atual diretor geral de Jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel conheceu Eros logo que chegou ao GLOBO, em 1989:

— Eros sempre foi um grande profissional. Trabalhamos juntos quando editei o Segundo Caderno, em 1991, e o acompanhei de muito perto até vir para a TV, em 2001. Eros tinha um texto primoroso, um olhar aguçado para as novidades do mundo cultural. Era um colega que sabia ser doce, mas não abdicava das suas convicções. Como deve ser.

A jornalista Regina Eleutério. que também trabalhou com Eros no GLOBO, descreve o colega como “doce, ético e generoso”, mas, “ao mesmo tempo, um exemplo de força e coragem”. Mais um ex-companheiro de trabalho, Cesar Tartaglia reforçou sua doçura:

— O tempo que convivi com Eros no GLOBO mostrou que pode haver pessoas tão doces quanto ele. Pode haver, há de haver. Mais do que ele, no entanto, é impossível.

Mario Toledo chefiou Eros, no Boa Viagem e nos Bairros, nos três últimos anos, antes dele se aposentar por invalidez em 2004:

— Ele era um cara iluminado e de uma bondade extrema, que eu aprendi a conviver e a gostar muito como pessoa e profissional. Depois que se aposentou, a gente passou a ser encontrar regularmente. Lembro de um almoço em minha casa. O meu filho, Rafael, chegou da escola. Na ocasião, perguntou o que o Eros fazia no GLOBO. Disse que era crítico de cinema. E o Rafael falou: "Que sorte. Você vê filme de graça, e ainda te pagam para isso". Acho que eu é que fui um cara de sorte por conviver com o Eros.

Outra ex-chefe, Sandra Sanches lembra da vivacidade e da competência de Eros:

— Era um repórter promissor, cheio de ideias, de um humor finíssimo.

Editor executivo do GLOBO, Alessandro Alvim deixou sua mensagem para Eros no Facebook: "Se existe uma pessoa que merece ser homenageada e celebrada é o amigo Eros Ramos de Almeida. Tive o previlégio de conviver na redação do Globo com essa pessoa única, incrível e especial".

Mas foi o nascimento dos filhos, há 23 anos, que levou Eros para a literatura. Em 2002, ele lançou “Melhor de três. O dia a dia de um pai de trigêmeos”.

Em 1995, Eros foi diagnosticado com uma doença hereditária degenerativa: a Machado-Joseph. Os primeiros sintomas apareceram em 2001. Desde 2016, ele estava acamado e, há cerca de duas semanas, foi internado no Hospital São Lucas, em Copacabana com pneumonia e infecção urinária.

Natural de Volta Redonda, Eros morreu nesta quarta-feiira de septicemia., aos 60 anos. Deixa mulher, a jornalista Claudia Moretz-Sohn, que conheceu quando estagiou no GLOBO, e os filhos João, Caio e Clara. "Você sempre vai ser o amor da minha vida. Sempre vai ser minha alma gêmea. Deus não nos uniu nessa vida sem propósito, somos almas velhas e que já se conheciam e vivenciaram um amor gigante. Enquanto eu viver, te prometo que você estará vivo. Eu vou lembrar de cada detalhe. Você me moldou como pessoa e me fez o ser humano mais empático e, de fato, mais humano que eu poderia ser", escreveu Clara no Facebook numa despedida emocionada do pai.