Moradores de povoado na Albânia usam bunker do comunismo como igreja

Mimoza Dhima.

Lin (Albânia), 17 mar (EFE).- Os moradores da pequena cidade de Lin nunca tinham pensado que um dia rezariam para São Nicolau de dentro de um bunker, símbolo da violenta ditadura comunista que transformou a Albânia no único país ateu do mundo.

Esta improvisada igreja ortodoxa, que não tem altar, mas vários ícones religiosos pendurados na parede redonda de concreto e aço é única da Albânia, um pequeno país de 2,8 milhões de habitantes, a maioria muçulmanos.

O lugar não tem portas. Para entrar é preciso se abaixar. Na janelinha por onde os soldados observavam um eventual inimigo estão imagens de Jesus, Maria e de Santo Elias, por exemplo.

Neste exato lugar os antigos moradores de Lin construíram há mais de dois séculos uma pequena igreja para São Nicolau, padroeiro das águas e protetor de marujos e pescadores.

Aos pés deste monte está o espetacular lago de Ohrid, que se encarrega de ser fronteira entre Albânia e Macedônia, e que transformou a colina em lugar estratégico de observação, além de ser lugar de veraneio do primeiro chefe do governo comunista da Albânia, Enver Hoxha.

Com os seus 280 metros, o lago Ohrid é o mais profundo dos Balcãs - além de ser um dos mais antigos do mundo -. De águas cristalinas e com fauna rica, ele se transformou em Patrimônio da Humanidade e atração turística.

Assim como a maioria dos lugares de culto cristão e muçulmano, a pequena Igreja de São Nicolau foi destruída em 1967, quando Hoxha proibiu todas as práticas religiosas e declarou a Albânia por Constituição o primeiro país ateu do mundo.

Os poucos templos que resistiram viraram mercado, academia ou cinema, enquanto centenas de religiosos foram perseguidos, assassinados, presos ou enviados a campos de trabalho forçado.

"Das sete igrejas que tínhamos aqui só ficou uma, a de Santa Bárbara, que virou Casa de Cultura, onde acontecem festas de casamento, de aniversário, reuniões do partido e lançamento de filmes", declarou à Agência Efe o padre de Lin, Nestor Bicja.

Da mesma forma que os demais jovens da cidade, em 1967 Bicja, que tinha 13 anos, se viu obrigado a colaborar com a destruição das igrejas.

"O meu primo, o padre Boris Bicja, foi proibido de andar com a batina, de usar barba e foi obrigado a trabalhar numa cooperativa", contou o religioso.

Anos mais tarde, perto das ruínas da igreja, Hoxha mandou construiu o bunker em questão, de onde soldados armados vigiavam noite e dia a fronteira do lago para que ninguém fosse para a então inimiga Iugoslávia. Era preciso proteger o país de uma hipotética invasão estrangeira que nunca aconteceu.

A fuga no comunismo era considerada traição à pátria, e as pessoas que tentavam eram mortas pelos guardas ou capturadas e presas por, no mínimo, 15 anos.

Algumas cenas marcaram a época, como a de uma família tentando fugir em cima de duas tábuas, em 1975, e a de pessoas que cruzavam o lago a nado e, para se proteger do frio, passavam óleo lubrificante pelo corpo.

Nos anos 70, a Albânia acabou inundada por milhares de bunkers de diferentes tamanhos, fruto da paranoia do ditador que temia uma imaginária agressão externa.

"É absurdo transformar um lugar sagrado em lugar de violência, onde soldados armados podem disparar contra qualquer um que tenta fugir", disse Bicja.

Em 1991, após a queda do comunismo e o retorno da democracia e da liberdade de culto, os habitantes de Lin logo fizeram do bunker um espaço repleto de ícones. Lá começaram a acender velas e fazer orações para São Nicolau.

Atualmente, não só cristãos ortodoxos, mas também muçulmanos da cidade consideram a Igreja de São Nicolau um lugar sagrado. EFE