Morre Fernando Duarte, diretor de fotografia de ‘Cabra marcado para morrer’ e referência do Cinema Novo, aos 89 anos

Importante nome na história do cinema brasileiro, o diretor de fotografia Fernando Duarte faleceu nesta terça-feira, 24 de janeiro, em Brasília, aos 89 anos, em decorrência de complicações pulmonares. A informação foi confirmada por Cézar Moraes, sobrinho de Fernando e também diretor de fotografia.

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Fernando Duarte foi diretor de fotografia de alguns com grandes longas do cinema nacional, como “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, “Os doces bárbaros” (1976), de Jom Tob Azulay, e “Ganga Zumba” (1963), de Cacá Diegues.

É considerado um dos fotógrafos que influenciou toda a geração do Cinema Novo. Após estudar no Conservatório Nacional de Teatro e frequentar reuniões na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e na União Nacional dos Estudantes (UNE), no final dos anos 1950 e início dos 1960, Fernando ficou muito próximo de realizadores como Nelson Pereira dos Santos e Paulo Cesar Saraceni, além de Cacá Diegues, que lhe convidou para seu primeiro trabalho no cinema, como assistente do clássico “Cinco vezes favela” (1962). Na ocasião, Fernando auxiliou o diretor de fotografia húngaro Özen Sermet, que vinha das chanchadas da Atlântica. Jovem, motivado e com experiência em fotografia still para jornais, Fernando se destacou na produção, que exigia muito da equipe de fotografia, que não tinha uma grande estrutura e precisava se adaptar à realidade das filmagens. No ano seguinte, foi chamado por Cacá para fotografar “Ganga Zumba”.

Em 1964, ao lado de Eduardo Coutinho, que conhecia do Centro Popular de Cultura, Fernando parte para o nordeste para rodar “Cabra marcado para morrer”, que viria a ser concluído apenas 20 anos depois após sofrer perseguições por parte da ditadura, que não queria ver um filme sobre a morte de um líder camponês sendo realizado.

Embora não tenha sido tão engajado quando alguns parceiros do Cinema Novo, Fernando trabalhou em importantes obras políticas, como “Maranhão 66”, curta-metragem de Glauber Rocha que retrata a posse de José Sarney como governador do Maranhão, sem ignorar as mazelas do estado.

— Em todo movimento artístico há alguns nomes que tornam guias incontornáveis. No caso do Cinema Novo pensa-se sempre nos diretores, mas muito do que se inventou em termos de imagem veio de Fernando Duarte, nome de primeira hora do movimento, e mestre inconteste de toda uma geração de diretores de fotografia no Brasil — lembra Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM.

Após trabalhar em “A vida provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, Fernando se muda para Brasília, onde passa a integrar o quadro de professores da UnB. Foi onde deu aula ao fotógrafo Walter Carvalho e também conheceu seu irmão, o documentarista Vladimir Carvalho, para quem fotografou “Conterrâneos velhos de guerra” (1993).

Ao longo de pouco mais de quatro décadas de carreira, Fernando trabalhou ainda com nomes como Helvécio Ratton, Tetê Moraes, Nelson Pereira dos Santos e David Neves. Sua experiência mais popular foi ao fotografar “O mundo mágico dos Trapalhões” (1981), de Silvio Tendler.