Morre Francisco Weffort, o professor que pensava a democracia no Brasil

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.05.2017 - Retrato de Francisco Welfort, fundador do PT e ex-ministro governo FHC. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.05.2017 - Retrato de Francisco Welfort, fundador do PT e ex-ministro governo FHC. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cientista político Francisco Weffort morreu nesta segunda (2), no Rio de Janeiro, durante um procedimento médico.

Weffort tinha 84 anos e se tratava de um problema do coração diagnosticado recentemente. Ele estava em Petrópolis no sábado (31) quando sofreu um desmaio. Levado para a capital, chegou a ser preparado para uma cirurgia que previa a desobstrução de artérias e a colocação de uma válvula na aorta. Mas não resistiu aos procedimentos iniciais.

Weffort deixa a mulher, Helena Severo, e filhos (Alice, Carolina, Helena, Cristina e Marina).

Weffort foi fundador, ideólogo e um dos principais dirigentes do PT. Na década de 1990, saiu da legenda e comandou o Ministério da Cultura no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). Se afastou do partido que fundou a ponto de defender o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Reconhecido como um dos principais intelectuais do país, Weffort tinha como eixo central de sua vida acadêmica a reflexão sobre a democracia e o populismo no Brasil e escreveu livros clássicos como "Formação do Pensamento Político Brasileiro", "Por que Democracia" e "Qual democracia?".

Helena Severo, que viveu com ele por 25 anos, afirma que Weffortt "estava ativo e lúcido até seus últimos dias, lendo, pensando, formulando. Ele era um intelectual raro, um pensador, um formulador, um estudioso obsessivo que tinha a alma do pesquisador. Atuou na esfera política, mas gostava de se qualificar sobretudo como um professor".

Segundo ela, Weffortt estava preocupado com os rumos do Brasil.

Seu último trabalho publicado foi o livro "Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil", com o professor José Álvaro Moisés.

"Ele foi um dos principais pensadores da nossa democracia, lançou sementes intelectuais de extraordinária importância, principalmente na área da esquerda, no chamamento para que a esquerda brasileira entendesse e contribuísse com os valores da democracia", afirma José Álvaro Moisés.

O cientista político morre logo depois de outros dois intelectuais de ponta do país —o sociólogo e cientista político Leôncio Martins Rodrigues, morto em maio deste ano, e o filósofo José Arthur Giannotti, que morreu na semana passada.

Formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP), ele ingressou no quadro de docentes da instituição em 1961 e lecionou na graduação até o golpe militar de 1964.

No período seguinte, Weffort teve passagens pelo Instituto Latino-Americano de Planificação Econômica e Social (Ilpes), sediado no Chile, pela Universidade de Essex, na Inglaterra, e pela Universidade de La Plata, na Argentina, onde também atuou como assessor da Organização Internacional do Trabalho.

Na década de 1970, integrou o corpo de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi um dos fundadores do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). Em 1977, tornou-se livre docente na USP e, no ano seguinte, publicou "O Populismo na Política Brasileira".

Entre 1990 e 1992, deu aulas no Woodrow Wilson Center e no Helen Kellogg Institute, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, assumiu a chefia do Departamento de Ciência Política da USP.

Weffort será enterrado em São Paulo. A família ainda não decidiu se fará algum tipo de cerimônia.

Leia declarações de políticos, ex-ministros da Cultura e cientistas políticos sobre ele:

"Nas últimas semanas, perdi três grandes amigos: primeiro o Leôncio Martins Rodrigues, depois José A.Giannotti e agora o Francisco Weffort . Pessoalmente a perda foi grande, assim como também perde a cultura brasileira. Cada um a seu modo, ajudou a formar estudantes assim como a entender melhor nossa cultura e sociedade. Deixam contribuições que farão as gerações futuras recordá-los. Hoje minha homenagem e minhas considerações estão voltadas especialmente ao caro Weffort, que deixa um vazio imenso em todos os que lhes eram próximos. Saudades."

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente

"Francisco Weffort foi um cientista político que marcou a academia brasileira, um professor por vocação, e um intelectual público dedicado a pensar sobre a democracia e o Brasil, não só estudando e refletindo sobre nossa realidade, mas também atuando como cidadão pelas causas que acreditava para um país melhor. Foi ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores e foi secretário-geral do PT, tendo uma atuação importante nos anos 1980 na estruturação do partido"

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente (PT)

"Conheci o Weffort na época do meu exílio no Chile, em 1965. Desde então, sempre o admirei como intelectual criativo e engajado. Sua partida representa uma grande perda para todos nós."

José Serra, senador (PSDB-SP)

"Weffort era cientista social e durante décadas contribuiu com suas reflexões sobre a natureza singular do capitalismo dependente e periférico, sobre o fenômeno do populismo e, nos últimos tempos, vinha se dedicando a estudos sobre a democracia. Foi fundador do PT e tempos depois rompeu com o partido que ajudou a fundar e veio a se aproximar do PSDB. Foi ministro da Cultura durante os governos de FHC. Estivemos recentemente juntos com outros ex-ministros e ex-ministra da Cultura quando redigimos e assinamos um manifesto contra a destruição do Estado brasileiro, dos direitos sociais e contra a guerra obscurantista e retrógrada que Bolsonaro vem travando contra a cultura brasileira. Apesar das diferenças políticas, presto minhas homenagens a este grande intelectual que estamos perdendo"

Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura (governos Lula e Dilma)

"Perdemos hoje um grande nome na construção de políticas públicas culturais: Francisco Weffort. Ministro da Cultura de 1995 a 2002, o mais longevo desde a redemocratização, deixou contribuições importantíssimas para o país, como a implantação da Lei do Audiovisual. Grande democrata, acadêmico e escritor, deixa um enorme legado, e sua partida será muito sentida, ainda mais nesses tempos de obscurantismo e desvalorização da cultura. Que Deus possa confortar seus familiares"

Marcelo Calero, ex-ministro da Cultura (governo Temer)

"Weffort foi um intelectual público essencial na luta pela democracia, um dos grandes politólogos do país, atento e sempre pesquisando. Seu último livro, com José Álvaro Moisés, sobre a crise da democracia representativa e neopopulismo, já é referência para entender os tempos que vivemos. Uma grande perda para o país"

Sérgio Abranches, sociólogo

"Ele foi um dos principais pensadores da nossa democracia, lançou sementes intelectuais de extraordinária importância, principalmente na área da esquerda, no chamamento para que a esquerda brasileira entendesse e contribuísse com os valores da democracia"

José Álvaro Moisés, cientista político

"Uma perda inestimável. Weffort era dotado de uma honestidade e generosidade intelectual incomuns. Uma pessoa notável"

Fernando Limongi, cientista político

"Weffort marcou o debate sobre a democracia no Brasil. Defendeu-a como um valor em si mesmo, uma conquista civilizatória, fazendo a crítica dos autoritarismos à esquerda e à direita"

Sérgio Fausto, cientista político e superintendente da Fundação FHC

"Francisco Weffort teve um papel decisivo na compreensão do papel das classes na política brasileira e na construção do Partido dos Trabalhadores. Embora, mais tarde, tenha seguido caminhos diferentes, deixa uma herança fundamental para a ciência política no Brasil"

André Singer, professor de ciência política da USP

"Francisco Weffort foi um exemplo de ministro que construiu sua administração a partir de princípios democráticos. Nem sempre estávamos de acordo, mas ele sabia como evitar ou corrigir os confrontos e acabava encontrando um espaço de conciliação entre os produtores de cultura e os interesses do governo. Sua morte me produz saudades da democracia."

Carlos Diegues, cineasta

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