Morre Hebe de Bonafini, líder histórica das Mães da Praça de Maio

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Morreu neste domingo (20) em La Plata, aos 93 anos, Hebe de Bonafini, líder e cofundadora das Mães da Praça de Maio, organização que, desde os anos 1970, busca os desaparecidos da mais recente ditadura militar argentina (1976-1983).

A associação, que começou com um grupo de mães que caminhava todas as quintas-feiras diante da Casa Rosada para pedir a aparição, com vida, de seus familiares, logo se transformou em uma poderosa organização, que hoje possui um instituto universitário, um jornal, uma rádio e uma livraria.

As Mães da Praça de Maio também administram o centro cultural que funciona hoje numa das ex-sedes clandestinas de tortura, a ESMA (Escola Superior de Mecânica da Marinha).

Interrompida por dois anos durante a pandemia, a marcha tradicional das Mães ainda ocorre, com as remanescentes acompanhadas de militantes de direitos humanos que as ajudam a fazer o percurso e entoam cânticos de apoio. A maioria delas hoje está em idade avançada.

A presença de Bonafini nessas marchas vinha rareando nos últimos meses devido a uma série de problemas de saúde. Quando podia, ela ia, mas ficava aguardando no furgão que levava as Mães ao centro de Buenos Aires.

Bonafini teve dois filhos desaparecidos durante a ditadura, e sua trajetória foi marcada pela luta e pelo ativismo em busca das vítimas. Era, ainda, conhecida por realizar comentários politicamente incorretos, como quando celebrou a queda das Torres Gêmeas nos EUA, em 2001. Era apoiadora do kirchnerismo, o que a levou a rachas internos com outras Mães e com as Avós da Praça de Maio (esta, uma fundação que busca os netos desaparecidos no período), que preferiam que o ativismo dessas organizações se limitasse aos direitos humanos e não se comprometesse com a política.

Originária de uma família de classe média da província de Buenos Aires, Bonafini apareceu publicamente pela última vez havia uma semana, quando presenciou a abertura de uma exposição de fotos suas no Centro Cultural Kirchner. A mostra se chama "Hebe de Bonafini - Uma Mãe Rev/belada".

Amiga de Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo Morales, entre outros, era um ícone da esquerda da região e fazia críticas mordazes ao "neoliberalismo" e ao FMI (Fundo Monetário Internacional). Sem ter podido ter educação formal devido à falta de condições familiares, estudou costura e dança espanhola com castanholas, hábito que manteve por muitos anos.

Defendia o peronismo baseada em sua história pessoal, uma vez que dizia que, em sua infância, "não havia férias, horários de trabalho regulamentados, sindicatos ou férias" —incluídos nas leis trabalhistas promulgadas por Perón.

Aos 14 anos, casou-se com Humberto Alfredo Bonafini, com quem teve três filhos, Jorge Omar, Raúl Alfredo e María Alejandra. Apenas esta última continua viva. Bonafini ficou viúva em 1982, e seus dois outros filhos continuam desaparecidos.

Jorge Omar foi sequestrado aos 26 anos, em La Plata, era professor de matemática, estudava física na Universidade Nacional de La Plata e era membro do partido comunista marxista-leninista. Antes de ser sequestrado, foi atacado pelas forças de repressão na rua, diante de várias testemunhas. Depois da surra, cobriram sua cabeça com um capuz preto e o levaram.

Sua mãe passou a percorrer hospitais e delegacias e, em sua casa, começou a se reunir com outros familiares de pessoas desaparecidas. Seu outro filho, Raúl, 24, também militante, passou a viver de modo clandestino, até que também desapareceu após uma reunião de sindicato. Era estudante de zoologia na faculdade de ciências naturais e militava no mesmo partido do irmão.

Vestígios dos dois irmãos foram encontrados anos depois num dos centros clandestinos de detenção e tortura. Os responsáveis pela administração do centro foram condenados com penas de prisão perpétua no processo conhecido como "Circuito Camps", cujo veredicto saiu em dezembro de 2012.

As Mães da Praça de Maio, ignoradas pelos grandes jornais argentinos durante a ditadura, passaram a buscar a imprensa de outros países para realizar suas denúncias. Foi assim que a fama internacional de Bonafini se espalhou, chamando a atenção aos crimes de lesa-humanidade que vinham ocorrendo na Argentina.

Segundo organizações de direitos humanos, a cifra de desaparecidos está entre 20 e 30 mil pessoas. Muitas das vítimas fora arremessadas no Rio da Prata, drogadas e com pesos nos pés, e até hoje vestígios de pessoas assassinadas dessa maneira sobrem à superfície de vez em quando.

O início das marchas foi em 30 de abril de 1977, quando se reuniram dezenas de mães e parentes de desaparecidos na Praça de Maio. A polícia tentou dispersá-las dizendo que não se podiam realizar reuniões aí. Elas então, para não terem de ficar paradas e serem reprimidas novamente, caminhavam aos pares, dando volta no espaço, que fica diante da Casa Rosada.

Usam, até hoje, panos brancos na cabeça, nos quais estão inscritos os nomes de seus filhos, cujos rostos também estampam as camisetas que usam.

Bonafini tinha um perfil de ativista agressiva que acabou dividindo as Mães, hoje organizadas entre a Línea Fundadora, presidida por Nora Cortiñas, comandada por Bonafini, e outras. Também se relacionava mal com Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, embora ambas estivessem, nos últimos tempos, apoiando os governos kirchneristas.

Uma de suas atitudes mais polêmicas foi dar proteção aos irmãos Sergio e Pablo Schoklender em 1995, que haviam assassinado os pais. Bonafini acreditava que eles mereciam uma segunda chance e que seus pais eram "membros da classe opressora". Acabou nomeando Sergio Schoklender administrador do programa "Sueños Compartidos", de construção de moradias para pessoas pobres. Schoklender, porém, foi acusado de desvio de verbas e preso, num escândalo que sujou a honra da Fundação Mães da Praça de Maio.

Bonafini viajou o mundo dando palestras sobre os desaparecidos na Argentina e ganhou vários prêmios internacionais, como o René Sand, o da Unesco e o título Honoris Causa das universidades da Califórnia e de Bolonha. Era, até hoje, o rosto mais conhecido, dentro e fora da Argentina, da luta pelos direitos das vítimas da ditadura.