Morre Heitor Aquino, personagem dos bastidores da ditadura que construiu arquivo histórico

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na abertura do livro "A Ditadura Envergonhada", primeiro volume da série sobre o regime militar (1964-1985), o jornalista Elio Gaspari agradece a um personagem discreto, metódico e fundamental para o resgate da história do período: Heitor Aquino Ferreira, secretário particular e homem de confiança do general Golbery do Couto e Silva e dos ex-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Aquino morreu na quarta-feira (24), aos 86 anos, vítima de câncer, no Rio de Janeiro. Nascido em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, ele era capitão da cavalaria do Exército e tinha apenas 27 anos no início da ditadura militar, regime a que serviu durante duas décadas.

Ao reunir documentos, gravações e escrever um diário, tornou-se responsável por um dos mais importantes arquivos do período.

De 1964 a 1967, quando foi secretário de Golbery, um dos articuladores do golpe e um dos criadores do SNI (Serviço Nacional de Informações), reuniu uma extensa documentação. Costumava atirar papéis em caixas que ficavam embaixo de sua mesa de trabalho e, dessa forma, construía um acervo precioso.

Golbery passava para o assessor documentos, bilhetes e anotações que foram armazenados em 25 caixas guardadas na garagem do sítio do general, nas proximidades de Brasília.

Gaspari recebeu essas caixas em custódia temporária e encontrou um repositório com 5.000 documentos, que ele chama de Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira.

"Numa pilha onde está uma lista de diplomatas que deveriam ser cassados em 1964, está também uma folha de bloco com os tópicos do que deve ter sido uma conversa telefônica entre João Goulart e o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, às 10h05 do dia 5 de setembro de 1961, no fragor da crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros", conta Gaspari em "A Ditadura Envergonhada".

No governo Geisel, Aquino organizou o arquivo do presidente, doado pela família em 1998 ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas.

Além de estruturar os arquivos de Golbery e Geisel, ele escreveu um diário durante mais de 20 anos. Segundo Gaspari, são 17 cadernos com cerca de meio milhão de palavras. O jornalista teve acesso aos escritos que vão de 1964 a 1976, além de fragmentos de outros períodos.

"Naqueles cadernos, parcialmente lidos por Geisel, está o mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil", diz o autor da série sobre a ditadura militar.

Aquino possuía também cerca de 300 horas de gravações de conversas e audiências, do final de 1973 até março de 1974, quando ocorreu a posse de Geisel na Presidência da República.

Na década de 1960, o militar foi o tradutor do livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, para o português. A fábula sobre o poder conta a insurreição de animais de uma granja contra os seus donos, em uma revolução que depois transforma-se em tirania.

No final da vida, ele trabalhava na revisão da tradução dos livros da Coleção de História Mundial, da editora Nova Fronteira.