Morre José Carlos Zanini, ativo, metódico e que viajou o mundo acompanhando Copas e Olimpíadas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com sorriso aberto, José Carlos Zanini olha para a câmera segurando seis ingressos em forma de leque.

Ele estava em Sydney, na Austrália, para as Olimpíadas de 2000, e foi personagem de uma reportagem da Folha com o título de "Viajar torcendo, torcer viajando".

Recém-aposentado, divorciado e com os filhos crescidos, passou a colecionar eventos esportivos e carimbos de países exóticos no passaporte.

Acompanhou in loco seis Jogos Olímpicos e seis Copas do Mundo, além de inúmeras corridas automobilísticas e torneios de tênis, esporte que praticou até descobrir uma leucemia, em março do ano passado.

Em 1994, fritou no sol forte do Rose Bowl, em Los Angeles, para ver Roberto Baggio perder o pênalti que nos deu o tetra. Em 1998, foi um dos milhares que ficaram perplexos no Stade de France, em Paris, com a apatia de Ronaldo na derrota para a França.

Neto de italianos que viviam na roça, ele nasceu em Catanduva (SP) e chegou a São Paulo na década de 1960, para trabalhar no Banco do Brasil.

Formou-se engenheiro mecânico pela FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), mas nunca exerceu a profissão, pois logo passou em concurso da Secretaria da Fazenda do Estado. Fez carreira como "fiscal de rendas", antigo nome para auditor fiscal.

Entre os colegas, era famoso pelo conhecimento enciclopédico das normas tributárias. Metódico ao extremo, devorava livros, sempre anotando observações em suas margens. Tinha fascínio especial pela história russa.

Na pandemia, sem poder viajar, valeu-se do confinamento para voltar a estudar cálculo e física.

Na infância dos filhos, foi pai exigente, insistindo que praticassem esportes e alertando-os contra a "inércia mental, o pior tipo de inércia que existe". Conforme ficou mais velho, passou a ter uma atitude mais relaxada com a vida.

Palmeirense, leu diariamente O Estado de S. Paulo durante décadas, mas passou a fazer concessões esporádicas ao jornal concorrente quando o filho são-paulino foi trabalhar na Folha. Só não abriu mão do alviverde.

Sempre muito ativo, dirigia os mais de 400 km até São José do Rio Preto para visitar a irmã Maria José nos intervalos das sessões de quimioterapia. Mesmo com o câncer avançando, nutria esperanças de ver mais uma Copa, a do Qatar, no fim do ano.

Pouco antes do Dia dos Pais, precisou ser internado, e em 27 de agosto, sedado, parou de respirar e partiu serenamente, aos 84 anos.

Deixa, além do autor deste texto, os filhos Flávia e João Carlos, os netos, Rafael e Pedro, e a companheira, Maria Ângela.