Morre Marc Ferro, francês célebre por livro sobre Revolução Russa e estudos sobre cinema e história

O Globo
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RIO - Um dos primeiros estudiosos a se utilizarem das imagens como fonte histórica, além de grande especialista em Século XX, o historiador francês Marc Ferro morreu na quarta-feira, aos 96 anos de idade, em Saint-Germain-en-Laye (Yvelines), rodeado por sua família. Ele foi vítima de complicações da Covid-19.

Autor de importantes estudos sobre a Primeira Grande Guerra e a Revolução Russa, Ferro ficou conhecido por ter sido pioneiro em teorizar e aplicar o estudo da chamada relação cinema-história no artigo "O filme: Uma contra-análise da sociedade?", publicado em 1971. Ele também dirigiu e apresentou documentários para a televisão sobre a ascensão dos nazistas, Lênin e a revolução russa e sobre a representação da história no cinema.

Em 1996, o historiador veio ao Brasil e participou em Salvador do simpósio internacional "A Guerra de Espanha e a relação cinema-história", organizado pela Oficina Cinema-História (UFBA).

Filho de uma judia ucraniana, Marc Ferro teve sua vida salva pelo seu professor de filosofia, Maurice Merleau-Ponty, que o alertou para que fugisse dos nazistas. Estudante na zona franca de Grenoble, em 1942 ele foi recrutado por uma amiga comunista que dirigia uma rede de combatentes da resistência na cidade. No ano seguinte, sua mãe morreria no campo de concetração de Auschwitz.

Depois da Guerra, em 1948, em Paris, o jovem professor que escapara dos nazistas e que militara na Resistência tomou conhecimento do colonialismo, sobre o qual anos mais tarde escreveria importantes livros, como "A colonização explicada a todos". Em 1954, quando estourou a guerra da independência da Argélia, Ferro participou em Oran do nascimento da Irmandade da Argélia, movimento progressista hostil às desigualdades do sistema colonial, que sonhava em impor um meio-termo, mas que não resistiu à intensificação das lutas e da violência a partir de 1956.

Foi nesse momento crítico que ele retornou a Paris, onde trabalhou nos colégios Montaigne, depois Rodin, enquanto trabalhava em sua tese que seria publicada em 1967: "A Revolução Russa de 1917". Ousando um discurso não ideológico, o historiador não temeu se utilizar de arquivos escritos e audiovisuais, para comprovar que a revolução proletária, pela qual se credita o movimento operário, se devia na verdade a mulheres, soldados e camponeses.

Foi um choque - e tanto mais quando Ferro estabelecue que o golpe de estado bolchevique de outubro de 1917 era supervalorizado e que a burocratização do regime, que está na base de sua absolutização, era tanto um fato que ocorreu vindo de cima quanto de baixo. Um movimento duplo nunca imaginado.

Nomeado diretor de estudos da Ecole Pratique des Hautes Etudes (1969), Marc Ferro ingressou simultaneamente na Ecole Polytechnique, onde foi professor assistente e depois professor (1969-1992). A partir daí, cargos de autoridade ou prestígio não podem mais ser contabilizados, desde a gestão do Instituto do Mundo Soviético e da Europa Central e Oriental até a presidência da Associação de Pesquisa da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, de 1991 a 2006. Sem falar na participação, a partir de 2003, como administrador do Instituto Nacional do Audiovisual (INA) e depois em 2006 no Conselho Superior de Arquivo Nacional.

Marc Ferro era um apaixonado pelo documento filmado. E ficou famoso com “História paralela”, justaposição de cinejornais veiculados quase simultaneamente em dois campos rivais, sem cortes ou comentários, antes de discutir esse confronto frontal com um convidado, especialista ou testemunha. Em doze temporadas e 630 programas, foi uma lição marcante em termos de método histórico e de honestidade crítica.