Morre o compositor portelense David Corrêa, aos 82 anos

Marcelo de Mello

RIO — Morreu neste domingo o compositor David Corrêa, aos 82 anos. Ele havia sido internado no sábado no Hospital Marcílio Dias, no Lins, na Zona Norte do Rio. Apesar do artista ter dado entrada devido a complicações renais, a Portela, escola de samba pela qual se consagrou, informou que familíares do músico apontaram a Covid-19 como causa da morte.

O samba-enredo chegou à década de 1970 sem convicção do caminho a seguir. Depois da glória com letras barrocas e melodias exuberantes, a necessidade de se comunicar com o público se impôs a partir do estouro de “Festa para um rei negro” (Salgueiro, 1971), de Zuzuca, cujo refrão“Pega no ganzê/ Pega no ganzá” correu mundo e chegou à torcida do Barcelona em forma de paródia. O que fazer? Insistir em pérolas no estilo do mestre Silas de Oliveira ou envolver a plateia com algo apelativo e fácil de cantar?

David Corrêa deu a resposta. Em letras poéticas e melodias cheias de pegada, ele uniu qualidade e empolgação, agradando tanto a jurados tradicionais quanto a pragmáticos: em 1979 — “Incrível, fantástico, extraordinário”, com Tião Motorista e J.Rodrigues — e 1981 — “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite”, com Jorge Macedo — ganhou o Estandarte de Ouro de melhor samba-enredo e foi o único a levar as notas máximas no julgamento oficial. Era bicho-papão nas disputas internas da Portela. Em dez anos (1973 a 1982), assinou o samba da azul e branco seis vezes, com diferentes parceiros, e levou três vezes o prêmio do GLOBO aos melhores do carnaval — a outra foi em 1975, em “Macunaíma (heróis de nossa gente)”, com Norival Reis, do refrão “Macunaíma, índio branco catimbeiro/ Negro sonso feiticeiro/ Mata cobra e dá um nó”.

Tanta competência despertou ressentimento de antigos compositores já no primeiro ano, 1973, em que ele ganhou na Portela com “Pasárgada (o amigo do rei)”. Um deles perguntou a David se ele se imaginava Cristo para andar sobre as águas, a propósito do refrão “Nas ondas do mar caminhei/ No azul do céu eu voei”.

Provocação inútil. Em 1981, ele se imaginou Cristo novamente ao escrever assim: “O mar, oi o mar/ Por onde andei mareou”. Mas Deus há de perdoar porque foi para fazer um dos sambas mais bonitos — e menos literais — da história. Não há sequer uma citação a elementos da fauna, flora ou seres mitológicos marinhos. Nenhuma sereia, Iemanjá, alga, pérola, coral, peixe ou baleia — dispensáveis porque a ideia não era descrever coisa alguma, mas expressar o fascínio do homem comum à beira da praia.

— O pessoal da velha guarda vinha me perguntar se existia o verbo marear porque estranhavam o tipo de letra. Existe, mas, mesmo se não existisse, eu dizia a eles que não haveria erro. A um deles eu respondi assim: "Sabe aquela jaqueira que existe na Portela? Então, se você quiser escrever no teu samba que vai jaqueirar, o problema é teu" — contava David.

Para se inspirar em 1981, ele e Jorge Macedo foram tomar cerveja em frente à praia de Barra de Guaratiba. Seu parceiro comentou que a água parecia estar subindo ao se encontrar com o céu na paisagem. Daí surgiu um dos versos mais inspirados: “O mar subiu na linha do horizonte/ Desaguando como fonte”. Qualquer folião se identificava com o samba ao cantar “E lá vou eu/ Pela imensidão do mar/ Essa onda que borda a avenida de espuma/ Me arrasta a sambar”. Para entender o enredo, bastava ter dado um mergulho uma vez na vida. Simples — e atraente — assim.

Dizem que o sambista que andou sobre as águas chegou a fazer bom pé de meia porque, nas décadas de 1970 e 80, seu apogeu, o LP dos Sambas-Enredo do Primeiro Grupo era presente de Natal tão clássico quanto os discos de Roberto Carlos. As vendagens chegavam a mais de 500 mil cópias.

Seus sambas eram uma comodidade. Nesse sentido, o de 1979 é exemplar. Os versos foram alongados de uma maneira que nenhuma sílaba, de palavra alguma, fosse “atropelada”. Mesmo trechos sem grande inventividade literária cresciam ao serem cantados como se as palavras tivessem mais vogais do que na escrita. Tinha-se essa impressão no verso “Incrível, fantástico, extraodinááário...” E o uso da musicalidade das vogais era evidente no refrão “Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô/ ô ô, ô, ô/ Alegria já contagiou/ A ordem do rei é brincaaar/ Quaaatro dias sem parar”. Nenhum achado de letra, mas gostoso na avenida porque foi o momento de cantar sem dificuldade alguma, abrir os braços e expressar a euforia cheio de gás.

Depois de 1981, David Corrêa nunca mais seria tão feliz em samba-enredo. Venceria competições na própria Portela e em outras escolas, mas “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite” foi a última vez em que ganhou o Estandarte de Ouro e as notas máximas do júri oficial.

Trinta e dois anos depois, aquela música voltaria à Sapucaí, no desfile da Série A. Foi cantada novamente, só que pela Tradição, escola fundada em 1984 como dissidência da Portela. David veio no carro de som, como apoio ao puxador Marquinhos Silva.

Foi ainda coautor de sambas populares na Mangueira — “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”, em 1994 — e na Estácio — “Uma vez Flamengo”, em 1995, adotado pela torcida no centenário do clube. Nos dois casos, sem a qualidade de antes. Almir Guineto, Elza Soares, Agepê e Roberto Ribeiro gravaram seus sucessos fora do carnaval. Mas sua imagem nunca deixou de estar associada à Portela, para onde voltou após perambular pelas coirmãs.

Se nos anos 70 ele foi quase unanimidade, na produção posterior houve quem o achasse repetitivo e banal. Mas jamais perdeu a sintonia com o público. Sabia como poucos que samba-enredo é música cantada por amadores, durante mais de uma hora, e precisa facilitar a respiração e empolgar. A mesma convicção guiou Silas de Oliveira, no inatacável “Aquarela brasileira”, de 1964, em que o baile termina com um confortável “Lá, lá, lá, laiá/ Lá, lá, lá, laiá...” depois de uma letra bem construída e com rimas inspiradas. David tinha algo em comum com o mestre imperiano.