Morre o ex-presidente português Jorge Sampaio, defensor do multilateralismo e do diálogo político

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

LISBOA — Presidente de Portugal entre 1996 e 2006, o socialista Jorge Sampaio morreu nesta sexta-feira, aos 81 anos, deixando como legado sua participação em momentos marcantes da vida pública portuguesa e internacional nas últimas décadas.

Formado em Direito, Sampaio participou do movimento estudantil que se levantava contra a ditadura salazarista nos anos 1960 e 1970, se aliando a lideranças progressistas em defesa de uma visão democrática e socialista para Portugal.

— Sentíamos que era necessário fazer algo para mudar tudo aquilo. Me sinto agradecido pela experiência que isso [movimento estudantil] me deu e pela qualidade que nos deu: a capacidade de questionar o futuro e querer melhorar sempre — declarou, em entrevista à emissora RTP há alguns anos.

Depois da redemocratização, em 1974, Sampaio assumiu posições nos primeiros governos e, em 1978, se juntaria às linhas do Partido Socialista, depois de divergências em anos anteriores — foi pela sigla que chegou ao Congresso, em 1979, e, dez anos depois, comandou uma aliança histórica com o Partido Comunista Português (PCP) e os Verdes na eleição para a Prefeitura de Lisboa.

Esse é apontado como um dos grandes feitos de sua carreira política, conseguir unir diversas vertentes da esquerda para vencer o então candidato de centro-direita, Marcelo Rebelo de Sousa, hoje presidente de Portugal, e comandar a capital portuguesa pelos anos à frente. Essa coligação seria repetida, anos depois, pelo atual premier, António Costa, desta vez com o Bloco de Esquerda e o PCP, no arranjo chamado de “geringonça”.

— Me posicionar é algo que sempre fiz. Quem o faz, custe o que custar, escolhe e não renuncia — afirmou Sampaio à RTP.

Em 1995, ele decidiu concorrer à Presidência da República, derrotando o ex-premier Aníbal Cavaco Silva em janeiro do ano seguinte e consolidando, ao lado do então premier António Guterres, o primeiro governo totalmente comandado por socialistas desde a redemocratização do país.

Os dois mandatos de Sampaio na alternaram momentos de relativa calmaria política e instabilidade, especialmente depois da virada do século, quando convocou eleições antecipadas em duas ocasiões, 2001 e, na mais polêmica de todas, 2004, em meio à troca do premier José Manuel Durão Barroso por Pedro Santana sem a realização de novas eleições. O Gabinete durou apenas quatro meses, e Sampaio convocou novas eleições, em uma manobra que ficou conhecida como “bomba atômica”.

No campo internacional, Sampaio esteve à frente de movimentos como a transferência de Macau para a China, em 1999, e o movimento pela independência do Timor Leste. Ele estava em Dili na cerimônia do içamento da bandeira timorense e, como de hábito, não escondeu as lágrimas.

Em 2000, Sampaio participou das cerimônias que marcaram os 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, ao lado do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Era um ferrenho defensor do papel da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa na promoção do idioma, e via na organização um mecanismo de integração entre as comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo.

Depois de deixar a Presidência, Sampaio foi convocado pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para ser o enviado especial da organização na luta contra a tuberculose, em 2006. No ano seguinte, se tornou o alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações, iniciativa criada para combater o extremismo através do diálogo e da cooperação internacional, espécie de resposta diplomática à “guerra ao terror” liderada pelos EUA.

Em seu último artigo, publicado no jornal Público em 26 de agosto, Sampaio anunciou a criação de um programa de bolsas para jovens afegãs, depois do retorno do Talibã ao comando do Afeganistão.

Sampaio estava internado desde o dia 27 de agosto com dificuldades respiratórias, e faleceu nesta sexta-feira, aos 81 anos. O governo português decretou três dias de luto oficial, e sua morte foi profundamente lamentada no meio político português.

“Para Jorge Sampaio, o exercício de seus múltiplos cargos políticos foi sempre e só mais uma forma de. exercer a cidadania”, declarou o premier António Costa. O secretário-geral da ONU e amigo, António Guterres, disse que Sampaio foi uma figura central no movimento que levou ao fim da ditadura em Portugal, e deixa uma marca decisiva na luta pela paz e diálogo entre as civilizações.

— A latinidade, os direitos humanos, a luta pela saúde ficam mais pobres com o desaparecimento de Jorge Sampaio. grande amigo dos amigos, intelectual sólido e humanista convicto — declarou a médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Margareth Dalcolmo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos