Morre o francês Jean-Marie Straub, mestre do cinema experimental

Morreu na madrugada do domingo, aos 89 anos, na cidade suíça de Rôlle, o cineasta francês Jean-Marie Straub. Junto com sua mulher, Danièle Huillet (falecida em 2006), e influenciado por Jean Renoir e Jean Grémillon, ele fez filmes como “Crônica de Anna Magdalena Bach” (1968), “Moisés e Arão” (1974), “Relações de classe” (1984) e “Gente da Sicília” (1999), que ajudaram a mudar a linguagem cinematográfica, ao experimentar com som e imagem, fora do circuito das grandes produtoras. A causa da morte não foi divulgada.

Admirados por cinéfilos em todo o mundo, os Straub, como eram conhecidos, trabalharam o cinema como matéria de ideologia política e estética. Casados por mais de 40 anos (até a morte de Danièlle), eles realizaram quase 30 filmes em parceria, alguns na França, a maioria entre Alemanha e Itália.

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Em suas produções, era comum a escalação de atores não profissionais, a câmera poderia ficar estática por minutos sem diálogos e nem sempre enquadrava o que teoricamente era o objeto central de uma cena. O som era captado diretamente durante as filmagens, sem que fosse permitido qualquer tipo de dublagem. Geralmente, mesmo que uma canção fosse inserida numa sequência, seus músicos deveriam estar ao lado da câmera, em quadro ou fora dele. Se houvesse narração em off, era o mesmo: o narrador lia o texto enquanto os atores interpretavam para a lente.

Após a morte da esposa, Straub continuou filmando: em 2011, por exemplo, ele lançou quatro curtas-metragens, todos captados com câmeras digitais. Entre eles, “O somma luce”, (adaptação de um trecho de “Divina comédia”, de Dante Alighieri) e “Chacais e árabes” (realizado a partir de uma adaptação de um conto de Franz Kafka). Em 2012, seus filmes, raríssimos no Brasil, ganharam uma mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro.

— A opção deles era muito uma questão ideológica de que não existe a possibilidade de se passar a sensação de um momento com o som inserido numa imagem filmada em outro momento — explicou Fernanda Taddei, cocoradora da mostra. — O encontro com a obra deles é desestabilizante. Para mim, é um pouco essa junção de toda uma resistência, de uma ideologia, com o trabalho em cima da matéria do cinema, essa combinação de ideologia e forma. É uma obra inesgotável.

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E nunca livre de polêmicas. Em setembro de 2006, o filme dos Straub “Esses encontros com eles”, por exemplo, foi selecionado para o Festival de Veneza, e o júri presidido pela atriz Catherine Deneuve decidiu dar a eles um prêmio especial pela “invenção na linguagem cinematográfica no conjunto de sua obra”. Mas Danièlle Huillet já estava doente — ela morreria um mês depois, em 9 de outubro —, impedindo que o casal comparecesse ao festival. Só que Straub resolveu mandar uma mensagem, lida por um dos atores na entrevista coletiva após a sessão.

A mensagem fazia referência à preocupação com algum ato de “celebração” ao aniversário de cinco anos dos ataques terroristas de 11 de Setembro. Dizia assim: “Eu não poderia festejar num festival onde há tanto público e policiais privados procurando um terrorista — eu sou um terrorista e afirmo, parafraseando Franco Fortini: enquanto houver o imperialismo capitalista da América, o número de terroristas existentes no mundo nunca será suficiente.”

A uma pergunta feita pelo GLOBO em 2012 sobre o caso em Veneza e a crise da União Europeia, Jean-Marie Straub respondeu:

— Hoje e sempre, o capitalismo nunca vai acabar, como dizia Mizoguchi (o cineasta japonês Kenji Mizoguchi, morto em 1956).