Morre Orlando Petrocillo, o Landão, que se divertiu no hospital e partiu de bem com a vida

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como guarda de uma funerária, Orlando Petrocillo, o Landão, cochilava mais do que vigiava. Fazia do seu trabalho uma piada na qual dizia que durante o expediente, das 17h30 às 7h, conseguia dormir sem ser importunado pela companheira de quase 60 anos, Zélia.

Na pacata Urupês, no interior paulista, de quase 14 mil habitantes, o telefone da funerária Rede Mil toca bem pouco. Neste ano, a cidade registrou 136 óbitos, uma média de 11 por mês, segundo o portal Transparência do Registro Civil.

Brincalhão e gozador, como dizem no interior, Landão não perdeu o sorriso nem às vésperas da sua morte, no dia 1º de dezembro, em decorrência de câncer no pulmão. Ele tinha 76 anos.

Internado no hospital padre Albino, em Catanduva (a 50 km de Urupês), ele se referia à cadeira de rodas como Uber e às sopas como lasanhas. Em seu leito, recebia as enfermeiras com charadas do tipo "o que a galinha foi fazer na igreja? Assistir à Missa do Galo".

Landão deixou, além de Zélia, os filhos Cristina, Sílvio e Fernando, sete netos (Diego, Fernandinho, Felipe, Clara, Samuel, Tiago e João Victor) e Urupês, ainda mais pacata. "Nesses dias que fiquei em Urupês, todo mundo tinha uma história para contar dele", disse o filho Fernando, o Feijão, que mora na Flórida (EUA).

Feijão, aliás, viria para o Brasil para as festas de final de ano e havia comprado uma assistente virtual a pedido de Landão, que ficou impressionado que a peça tocava até as músicas que ele pedia e contratou um serviço de internet para utilizá-la. Não deu tempo.

"A vida dele foi a de alegrar as pessoas, queria ver a família junto e não tinha hora ruim. Até nos velórios ele fazia as pessoas sorrirem", recorda Feijão.

A família diz só se lembrar de ter visto Landão chorando uma vez, quando a filha Rita morreu, aos 28 anos.

"A perda da Rita, tão jovem, foi muito dolorida. Ela foi tirar uma verruga nas costas, que estava incomodando, e viram que era câncer", recorda Cristina. "Mas ele logo começou a superar o luto. Nunca vimos meu pai reclamar da vida, ficar se lamentando."

No caso de Landão, o câncer fora diagnosticado quase um mês antes do óbito. "Ele não fez os procedimentos como quimioterapia, radioterapia, a médica viu que o câncer era maligno", afirma Cristina.

Companheiro de Landão nos últimos 14 anos, o papagaio Louro demonstra saudades. O bichinho permitia que somente ele tocasse na sua cabeça. Diariamente, ambos passeavam de carro e tomavam café. Agora, Louro recorre aos braços de Zélia.