Morre paciente que viveu por 51 anos no Hospital das Clínicas em SP

Cleide Carvalho
·2 minuto de leitura
Arquivo Pessoal /Instagram
Arquivo Pessoal /Instagram

SÃO PAULO. "Aminha mente, ela é livre". Foi assim que Paulo Henrique Machadodescreveu em seu canal do youtube a vida dentro do Instituto deOrtopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, onde viveu por51 anos. Ele morreu nesta quinta-feira, em decorrência dos problemasrespiratórios causados pela poliomielite, que contraiu ainda bebê eo fez viver por 51 anos num quarto de hospital, dependente de umrespirador mecânico.

"Tudo que a vidame propôs foi aqui dentro desse hospital", afirmou Machado."Nada me impediu de ter uma vida normal. A minha mente, ela élivre. No meu físico tem limite, exploro a liberdade pela mente. Porela, escapo da vida aqui", contou em seu canal do Youtube, ondealcançou 81 mil inscritos. No Instagram, eram 4.331 seguidores.

A mãe de Machadomorreu dois dias após o nascimento dele. Em 1969, com um ano e meio,passou a viver no hospital. Quando era criança e ainda conseguia selocomover por cadeira de rodas, circulava pelos corredores dohospital e fazia amigos entre os internados. Estudou, conseguiucompletar o segundo grau e fez diversos cursos de informática.

Conseguiu seu primeirocomputador em 1992 e se apaixonou pelos games. Nas poucas vezes emque conseguiu sair do hospital, foi levado a eventos da área, comoBrasil Game Show e Comic Con Experience. Mas os funcionários dohospital também o levaram para conhecer o mar e ver o por do solnuma praia.

Ele costumava dizer quedentro do hospital sempre teve proteção e segurança - "É umavida até boa" - mas que, como todo ser humano, tinha momentosde felicidade e outros de extrema solidão. Em 2018, chegou a secandidatar a deputado estadual, mas não foi eleito.

Por muito tempo,dividiu o quarto com Eliane Zagui, que escreveu livro "Pulmãode Aço - Uma vida no maior hospital do Brasil" e o roteiro deuma animação 3D lançada em 2013 por Machado, "As aventuras deLéca e seus amigos", inspirada na história dos dois.

Eliane deixou ohospital no ano passado, depois de 43 anos, e passou a viver em umacasa.

Na época em que osdois foram internados, a expectativa de vida das vítimas da doençaera de 10 anos. Ao deixar o hospital, Eliane contou que o primeirotratamento que recebeu foi ficar numa máquina conhecida como pulmãode aço. O tratamento não deu certo e ela passou a respirar portraqueostomia, como vive até hoje. Ela contou que chegaram a sersete crianças morando no HC, mas que cinco morreram e ficaram apenasos dois. Nesses momentos, afirmou, sentina desânimo, mas que "Deusvai provando que você não é a próxima a morrer, mas a continuar".

O Hospital das Clínicasdivulgou nota lamentando a morte de Machado e lembrando que nos 51anos em que morou no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, teveatenção humanizada e especializada dos profissionais da casa.