Morre Peter Zinovieff, compositor e inventor do sintetizador portátil que mudou a música pop

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Morreu aos 88 anos o compositor britânico Peter Zinovieff, considerado um pioneiro na criação e no uso de sintetizadores na música. A morte foi na noite de quarta-feira, mas veio a público apenas neste sábado. Zinovieff sofreu uma queda em casa, ficou internado por dez dias, mas não resistiu às complicações. A informação foi confirmada pelo amigo e também compositor James Gardner.

Zinovieff ajudou a moldar a música pop desde a década de 1970 até hoje. A sua grande criação foi o VCS 3, um sintetizador que superava seus concorrentes, como os Moog, por ser portátil — o instrumento era do tamanho de uma maleta, enquanto os demais eram comparáveis com uma parede inteira.

O VCS 3 foi lançado em 1969 pela companhia inglesa Electronic Music Studios (EMS), empresa que tinha Zinovieff como um dos fundadores. O pequeno sintetizador foi muito usado em discos clássicos, como "The dark side of the moon" (1973), do Pink Floyd, e também por nomes como David Bowie, Beatles, Led Zeppelin, Kraftwerk, Portishead e Chemical Brothers. Muitas vezes, o próprio Zinovieff ensinava os músicos a usarem o synth.

Filho de russos que imigraram para Londres fugindo da Revolução Russa de 1917, ele se formou em Geologia pela Universidade de Oxford. Casou-se aos 27 anos com Victoria, uma jovem que não aceitava as frequentes viagens do geólogo pelo mundo. A saída de Zinovieff foi voltar-se para a música, paixão que cultivou durante a faculdade. Inquieto, ele não se contentava com os sons que criava no piano.

— Quando resolvi focar nisso, meu objetivo passou a ser criar sons que não eram possíveis com os instrumentos que tínhamos na época (década de 1960). Meu negócio era música experimental, eletrônica. Quase ninguém fazia isso. Criei um estúdio complexo, impensado até então — contou ele numa entrevista ao GLOBO em 2016, já com 83 anos.

Para construir o estúdio, Zinovieff comprou antigos equipamentos da Marinha, encheu um cômodo de sua casa de osciladores e amplificadores, e adquiriu o que jura ser o primeiro computador doméstico da história - um PDP-8, modelo industrial que tinha cerca de quatro quilobytes de memória e custaria, hoje em dia, algo em torno de 100 mil libras (financiado pela venda uma tiara que seu sogro tinha dado para a filha). Da necessidade de ganhar dinheiro para bancar seu trabalho como compositor de trilhas e da associação com engenheiros eletrônicos e pesquisadores nasceu a EMS - e o VCS 3.

Após algumas demonstrações públicas e concertos improvisados de música eletrônica, o novo produto, que custava inicialmente cerca de 330 libras, passou a ser cobiçado por artistas britânicos de rock progressivo. Com isso, Zinovieff, até então avesso à música popular — a ponto de ter negado um encontro com Paul McCartney —, foi obrigado a baixar a guarda. E passou a receber artistas como Ringo Starr, David Gilmour, Roger Waters, David Bowie e Karlheinz Stockhausen.

— Eu não ensinei nada a esses caras. Assim que eles começaram a experimentar meu sintetizador, eles imediatamente superaram qualquer coisa que eu poderia lhes ensinar. Por isso, são geniais. Eles tiveram o feeling e souberam tirar daquilo o que queriam. E também é por isso que os efeitos que o sintetizador causou em suas canções foram tão diferentes entre si — contou Zinovieff, na época.

Na mesma entrevista, ele não pensou duas vezes antes de cravar quem fez o melhor uso de suas invenções:

— Pink Floyd, sem dúvidas. Eles usaram a máquina da maneira mais inovadora possível, e fizeram músicas extraordinárias que ninguém tinha escutado até então. Dos artistas mais novos, o Portishead também faz um bom trabalho.

A EMS viria a entrar em falência na década de 1970, e Zinovieff perdeu grande parte dos seus equipamentos numa inundação. Ele ficou décadas longe da música, se dedicando ao design gráfico e ao ofício como professor.

Ele se reencontraria com a composição em 2010, quando foi descoberto por uma nova geração de músicos. Nesta fase, fez diversas parcerias com a poeta Katrina Porteous.

Zinovieff deixa a mulher, Jenny Jardine, e cinco filhos.

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