Morre Ruggero Deodato, pai do cinema canibal, aos 83 anos

Considerado o pai do cinema canibal, graças sobretudo ao polêmico e cultuado "Holocausto Canibal" (1980), Ruggero Deodato morreu nesta quinta-feira (29) em Roma, aos 83 anos. Ainda não há informações sobre a causa de sua morte.

Natural de Potenza, no Sul da Itália, Deodato começou no cinema como figurante, mas abandonou a carreira de ator após não ser escalado por Federico Fellini. Nos anos 1960, foi assistente de direção de Roberto Rossellini, entre eles "De crápula a herói" (1959) e "Viva a Itália" (1961).

Em seguida, Deodato trabalhou com expoentes do cinema B italiano, como Antonio Margheriti e Sergio Corbucci (no documentário "Django & Django", o italiano e Quentin Tarantino, grande fã da dupla, analisam o legado dos westerns spaghetti de Corbucci). Depois, Deodato dirigiu comerciais, filmes policiais de baixo orçamento e o thriller erótico "Onda de prazer" (1975).

A fama chega com a chamada "trilogia dos canibais", iniciada por "O último mundo dos canibais" (1977), pensado como uma sequência de "Mundo canibal" (1972), de Umberto Lenzi. Os filmes do que ficou posteriormente conhecido como ciclo italiano canibal seguiam basicamente as mesmas linhas, com cenas de nudez, estupro e tortura, filmadas com poucos recursos, que exploravam o exotismo de tribos antropófagas isoladas, em locações que simulavam selvas africanas ou sul-americanas.

Três anos depois, lança o filme que o tornaria mundialmente famoso, "Holocausto Canibal", confiscado dez dias após a estreia pelas autoridades italianas, que acreditavam que as imagens de canibalismo, estupro e violência fossem reais, e não encenadas. Banido em 50 países, o longa ainda rendeu a prisão do diretor por um breve período, acusado de obscenidade e assassinato. Ainda hoje, o diretor é criticado pela morte e crueldade com animais, que aparecem no longa.

"Holocausto Canibal" é considerado um dos primeiros "mockumentaries" (falsos documentários) do cinema, com o roteiro baseado em um antropólogo da Universidade de Nova York que lidera as buscas por uma equipe de documentaristas desaparecida em algum ponto da Amazônia brasileira. No local, ele descobre registros viscerais de canibalismo, tortura, estupro em fitas deixadas pela equipe (o roteiro, narrado em flash back, inspirou várias produções do subgênero found footage, inclusive o mais famoso deles, "A Bruxa de Blair" (1999). A "trilogia dos canibais" foi encerrada com "Inferno in diretta" (1985)

Em 2013, quando veio ao Rio participar de uma mostra paralela do Fantaspoa (Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre), Deodato falou ao GLOBO sobre a influência do filme:

— Quando “A bruxa de Blair” estourou, todo mundo achou a ideia sensacional, mas depois começaram a lembrar que alguém já tinha tido feito isso 20 anos antes. De uma hora para outra, jornalistas do mundo inteiro começaram a me entrevistar. E assim “Canibal holocausto” renasceu. Acho que o filme continua popular por causa da maneira que mistura ficção com técnicas do cinéma verité. Isso ainda causa curiosidade.

Nos anos 1980, o italiano permaneceu cultuado entre os fãs de terror graças a outros longas, como "Inferno ao vivo" (1984), "Contagem de cadáveres" (1986) e "A face" (1987). Além de Tarantino, outro grande fã seu no cinema americano é o diretor Eli Roth, que o convidou para uma participação como ator em "O albergue 2" (2007), no papel de um canibal.