Morre Salime Abdo, educadora que liderou a família e uma cidade inteira

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O protagonismo sempre foi a grande marca da educadora Salime Abdo, desde a adolescência e ao longo de sua vida. Ela foi líder da família e de uma cidade inteira.

A lista dos motivos que a colocam na história é grande. Salime foi a primeira mulher a ocupar a cadeira de prefeita em Nova Odessa, cidade que fica na região de Campinas, no interior de São Paulo. Isso quando já estava com 75 anos e poderia desfrutar os benefícios da aposentadoria.

O fato inédito ocorreu em 26 de agosto de 2005, quando estava no primeiro de seus dois mandatos seguidos como vice-prefeita, e o titular da pasta, Manoel Samartin, havia viajado para o exterior.

Filha de pai sírio e mãe libanesa, e a segunda de quatro irmãs, Salime enfrentou seu primeiro teste na vida aos 9 anos, quando sua mãe morreu.

Na época comerciante de grãos e cereais em Vera Cruz, também no interior paulista, o pai foi convencido por um padre a matricular as quatro meninas em um colégio interno em Agudos, a cerca de 110 km dali.

Seis anos depois, o pai, que tinha se casado mais uma vez, morreu. A madrasta não ficou com as meninas e as quatro voltaram ao colégio interno.

"Lá ela trabalhou na secretaria para ajudar no pagamento das despesas", afirma a médica Ana Maria Abdo Thiene Leme, sobrinha de Salime.

A irmã mais velha, Helena, se casou, enquanto as outras três seguiram carreiras de educadoras.

Salime conseguiu bolsa de estudos para se formar em pedagogia em Campinas. As irmãs Nabia e Maiba foram dar aulas em escolas rurais no interior.

Até que um outro padre, Aurélio Vasconcelos de Almeida, foi convencido a abrigar as três meninas em Nova Odessa, onde ele havia acabado de assumir a paróquia do então distrito de Americana (SP).

"Aos poucos, as três conseguiram transferências para escolas de lá", diz a sobrinha, sobre a mudança na década de 1950. "E elas acabaram cuidando do padre até o fim da sua vida", diz a sobrinha.

Junto com o padre e outras lideranças, Salime fez parte do grupo que pressionou o governo estadual a transformar Nova Odessa em município. A educadora foi responsável por redigir a carta que pediu a emancipação.

Na cidade, Salime foi professora, diretora de escola e responsável pelo processo de municipalização da educação. "Em Nova Odessa, aluno de escola pública passava no vestibular", afirma Ana Maria.

Salime Abdo morreu no último dia 18, aos 92 anos, de falência de múltiplos órgãos, após uma cirurgia no coração. Nos seus últimos dias estava lúcida, tanto que comentou a violência que provocou os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, no Amazonas.

A educadora deixa as irmãs Nabia Abdo Thiene e Maiba Abdo, e os sobrinhos Paulo e Ana Maria.

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