Morre sexto paciente transferido do Hospital de Bonsucesso após incêndio

Gustavo Goulart
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Rita Segtovich demorou 30 horas para descobrir onde o pai, Ciro Amorim, estava internado após transferência do Hospital de Bonsucesso
Rita Segtovich demorou 30 horas para descobrir onde o pai, Ciro Amorim, estava internado após transferência do Hospital de Bonsucesso

Após sofrer uma angústia de mais de 30 horas numa peregrinação para encontrar o pai, de 93 anos, que estava internado no terceiro andar do prédio 1 do Hospital Federal de Bonsucesso e foi transferido por causa do grande incêndio que atingiu a unidade na semana passada, a família de Ciro Amorim Segtovich está de luto. Ele foi a sexta pessoa internada na unidade federal a morrer após o incêndio.

A certidão de óbito emitida pelo Hospital de Campanha do Riocentro, para onde foi transferido, aponta que ele faleceu às 8 horas deste domingo. Mas o documento não indica a causa da morte, segundo a pensionista Rita Segtovich, de 63 anos, filha do idoso. Mas ela não tem dúvidas de que o pai morreu vítima de Covid-19.

— Ele faleceu ontem e, segundo a declaração de óbito, foi às 8h. Foi por Covid-19. Mas eles não botaram isso no laudo. Lá onde ele estava é hospital de Covid, mas eu achava que ele não estava com vírus, pois já tinha tido. Ele era cardíaco. Meu pai testou negativo para o coronavirus tanto no Hospital (Estadual) Getúlio Vargas, onde ele esteve antes de ser transferido para o Hospital de Bonsucesso, e também lá ele testou negativo. Todos nós testamos negativo. Mas ele já tinha tido Covid-19 no início. E eu também, e a gente se curou com remédio de gripe em casa. A gente não sabia o que era. Pensávamos que era gripe, mas ele não se curou — contou a filha, que está tratando dos trâmites para o sepultamento, a ser realizado sem velório.

Segundo ela, o idoso deu entrada no Hospital de Bonsucesso no dia 29 de setembro, com pneumonia e suspeita de Covid-19. Ele ficou em isolamento por dez dias, até que um teste deu resultado negativo para o novo coronavírus. Com isso, Ciro foi transferido do Covidário (ala reservada para pacientes com a doença) para a unidade pós-operatória, no mesmo prédio, onde podia receber visitas regulares de parentes.

— O teste rápido (feito recentemente) deu positivo, mas estávamos aguardando o resultado daquele teste mais completo (PCR), que demora até dez dias — contou Rita.

Na semana passada, Rita contou ao EXTRA a via-crúcis que cumpriu para localizar o pai depois de ser retirado do Hospital Federal de Bonsucesso. A família foi informada de que ele teria sido transferido às pressas para o Hospital Estadual Anchieta, no Caju. No entanto, o idoso não deu entrada na unidade, e Rita deu início à peregrinação em busca do pai. Somente no início da noite de quarta-feira, dia 28, após o drama ser contado na reportagem do EXTRA, descobriu-se que Ciro foi transferido, na verdade, para o Hospital de Campanha do Riocentro, na Zona Oeste da cidade.

Em nota, a direção do Hospital Federal de Bonsucesso pediu desculpas pelo ocorrido: "lamentavelmente houve um erro de informação por parte desta unidade hospitalar, ao familiar, sobre a transferência do paciente Ciro Amorim". A direção informou à época que corrigiu a informação e indicou à família sobre o local para onde o paciente foi transferido.

Mas Rita quis saber porque o pai, que não estava diagnosticado com Covid-19, foi encaminhado para uma unidade de campanha criada exclusivamente para receber pacientes infectados com o novo coronavírus.

— Recebi a informação da assistente social do hospital que ele foi transferido para o Hospital de Campanha do Riocentro. Questionei porque ele foi pra lá, já que não estava com Covid, e explicaram que abriram uma nova ala para esses pacientes — desabafou Rita.

A última vez que Rita havia conversado com o pai foi no domingo retrasado, dia 25 de outubro. Na segunda-feira, um sobrinho foi visitá-lo e na terça-feira as visitas foram suspensas por causa do incêndio.

As primeiras mortes confirmadas, logo depois do fogo, foram de Núbia da Silva Rodrigues, de 42 anos, e de uma idosa, de 83. As duas estavam internadas com covid-19 e não resistiram à transferência às pressas.

No fim da noite de terça-feira, o Ministério da Saúde comunicou também a morte de Marco Paulo Luiz, de 39 anos. Ele estava no CTI do Hospital de Bonsucesso e faleceu depois de ser levado para outro prédio.

A quarta vítima que morreu após incêndio foi uma idosa, de 73 anos, que tratava uma doença cardíaca avançada. Ela morreu, na quarta-feira, no Hospital Municipal Souza Aguiar. Um idoso de 70 anos, diagnosticado com Covid-19, foi confirmado como a quinta morte após as transferências. Ele estava internado no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, e morreu na manhã da última sexta-feira, dia 30.