Morre Vito Acconci, pioneiro da performance e arquiteto visceral

SILAS MARTÍ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos maiores nomes da performance e da videoarte e autor de projetos arquitetônicos que desafiam a lógica e reenquadram o corpo no espaço, Vito Acconci morreu nesta quinta (27), aos 77, em Nova York, onde foi um dos pilares da cena artística nas décadas de 1960 e 1970. Sua morte, atribuída a um mal súbito, foi confirmada pela mulher.

Idealizador de ações efêmeras, muitas vezes chocantes, Acconci é um dos últimos remanescentes da cena artística que se desenvolveu num SoHo pré-gentrificação na Manhattan dos anos 1970, onde viviam figuras como Dan Flavin, Donald Judd e Gordon Matta-Clark, com quem teve talvez maior afinidade estética.

Uma atitude de resistência ao mercado e a vontade iconoclasta de desafiar códigos de conduta enraizados no urbanismo e na arquitetura cada vez mais engessada está na base de suas ações, entre elas a mais célebre. Em 1972, na mostra que realizou em uma galeria nova-iorquina, o artista se escondia debaixo do assoalho e se masturbava oito horas seguidas por dia, sussurrando fantasias sexuais por entre as frestas do piso.

"Seedbed", como batizou a performance, orientou desde o início uma obra plástica calcada em questionar a experiência estanque do corpo no espaço, ou seja, Acconci buscava desestruturar e desestabilizar a forma como o ambiente construído determinava o comportamento.

Outras ações, como a que aguardava anônimos num píer de Manhattan à 1h da madrugada para contar seus segredos, ou a que performance em que seguia estranhos pelas ruas da cidade, interrompendo a caçada só no momento em que seu alvo entrava num prédio, revelam não só o potencial explosivo da crítica que fazia à opressão da arquitetura corporativa sobre os fluxos e comportamentos na cidade contemporânea, mas ao mesmo tempo uma verve poética que extraía beleza do acaso.

Não à toa, entre suas referências conceituais estão menos artistas visuais e mais escritores e cineastas, como Jean Genet, Jean-Luc Godard e William Faulkner, todos retratistas de vidas à flor da pele, marcadas pela força do ambiente ao redor.

Entre suas obras no campo da arquitetura e do mobiliário, Acconci criou uma mesa de jantar que se projetava para fora da sala como um trampolim sobre a cidade. Em São Paulo, num festival de arte urbana há 15 anos, ele também criou banheiros para moradores de rua, numa crítica à falta dessas estruturas para populações carentes, antecipando a era da chamada "social practice", de performances e obras de arte capazes de melhorar, de fato, a vida nas cidades.

Sua morte, dois anos depois da de Chris Burden, encerra nas artes visuais uma era de ouro da performance. Acconci, que passou as últimas décadas de vida dedicado à arquitetura, se distanciou dessa linguagem no campo da arte quando sentiu que ela se esgotava, da mesma forma que o californiano, célebre pela ação em que levou um tiro em plena galeria.