Morre Wilko Johnson, músico e ator de 'Game of thrones', que há 10 anos enfrentava câncer terminal

Morreu, na manhã desta quarta-feira (23), o ator e músico Wilko Johnson, que consagrou um estilo único de tocar guitarra, tornando-se uma das principais influências no movimento punk, na Inglaterra. O artista — que ganhou fama nos anos 1970, ao lado da banda de pub-rock Dr. Feelgood — integrou, mais recentemente, o elenco da série de TV "Game of Thrones", em que interpretou o silencioso carrasco Ilyn Payne.

Há dez anos, pouco depois de ser lançada a segunda temporada de "Game of Thrones", da qual participou — ele também está presente na primeira temporada —, Johnson foi diagnosticado com câncer no pâncreas em estado terminal. À época, ele optou por não se submeter à quimioterapia.

A forma pública com que lidou com a "sentença de morte", como dizia, fez com que o guitarrista fosse mais amado do que nunca. Ele respondeu ao diagnóstico com um surto de criatividade, e até mesmo voltou aos estúdios para gravar um novo álbum. Seus shows de despedida em Londres, em 2014, ficaram entre os grandes momentos da história do rock. Mas então, de forma ainda mais surpreendente, o diagnóstico de seu câncer raro, quase intratável, mudou. O músico venceu as probabilidades e sobreviveu a uma operação com 85% de risco de morte.

"Passei por estranhas mudanças de consciência", avaliou ele, depois de receber a notícia sobre a cirurgia bem-sucedida. "Aquele ano em que eu estava morrendo foi realmente muito bom para os shows — porque você simplesmente não se importa, não tem futuro. Simplesmente vai lá e toca, pela música. E ainda tenho isso comigo. Mas muitas das lições que aprendi estão se perdendo. Ainda não me acostumei com a ideia de pensar mais de dois ou três meses no futuro. Mas aos poucos estou me acostumando com a ideia de que minha vida não está acabando. Aquele experiência de um ano enfrentando a morte agora parece um sonho", contou ele.

A vida do músico, com uma das trajetórias mais estranhas do rock, foi retratada no documentário "The ecstasy of Wilko Johnson" (2015), dirigido por Julien Temple.

Wilko Johnson — uma brincadeira com John Wilkinson, seu nome de batismo — era uma mistura de palhaço, ranzinza, showman e estudioso cuja vida foi exemplo de inspiração e alerta para estrelas do rock.

Roqueiro improvável, ele estudou literatura anglo-saxã e foi professor antes de se juntar ao Dr. Feelgood, grupo que o fez ser visto como um herói para muitos — e mais influente do que famoso, entre fãs. Na era do extravagante glam rock e do indulgente progressivo, os músicos do Dr. Feelgood eram diferentes — vagabundos em ternos baratos tocando um blues fora de moda. Clipes da banda tocando canções como "Roxette" revelam a química explosiva entre o carismático cantor Lee Brilleaux e o guitarrista Wilko Johnson.

Por um tempo, a banda protagonizou uma vida de sonho, incluindo quatro álbuns na parada britânica e uma turnê pelos EUA. Mas aí veio o ano de 1977, "e surgiu o punk rock e nós fomos meio que engolidos", como relatou Johnson numa entrevista recente.

Logo depois, Johnson deixou o Dr. Feelgood e se juntou à banda de Ian Dury, The Blockheads, antes de sair em carreira solo. Construiu bases leais de fãs na Grã-Bretanha e no Japão, onde tocou muitas vezes nos últimos 30 anos.