Morto aos 41, Covas simbolizou renovação e reconciliação política

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Bruno Covas, mayor of Sao Paulo, celebrates his re-election during the municipal elections in Sao Paulo, Brazil, November 29, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Bruno Covas celebra reeleição à Prefeitura de São Paulo. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A morte precoce de Bruno Covas, neste domingo 16, aos 41 anos, interrompe um processo de renovação no PSDB e, ao mesmo tempo, de reconciliação do eleitor com a classe política, devastada desde o rolo compressor da Lava Jato.

Em sua campanha pela reeleição à Prefeitura de São Paulo, no ano passado, Covas promoveu uma mudança significativa em relação à postura e o discurso do antecessor, o também tucano João Doria, de quem foi eleito vice-prefeito em 2016.

Em vez de se escorar em um discurso antipolítica, ele mostrou na propaganda que, fora da política, não existe mudança. Em uma das peças que levou à TV, dizia, enquanto dirigia o próprio carro em direção à prefeitura, que política era um trabalho como outro qualquer. Contava também que via naquele trabalho uma vocação e que não tinha motivos para sentir vergonha disso. 

Essa vocação, fez questão de ressaltar durante toda a campanha, vinha da inspiração política do avô, Mario Covas, que também morreu de câncer, há exatos 20 anos, quando era governador de São Paulo.

Covas foi o primeiro convidado do programa "Vozes da Nova Política" do Yahoo Notícias em 2019. Estive na bancada de entrevistadores.

O Brasil tinha acabado de sair de uma violenta campanha política que deixou estragos e feridos por todos os campos. O PSDB, partido de Covas, tinha as digitais nesse recrudescimento —que alimentava, consequentemente, o sentimento antipolítica dominante.

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No estúdio da sede do Yahoo, em São Paulo, lembro da tensão momentos antes da chegada do prefeito, que era ainda uma figura desconhecida do grande público e até então evitava dizer que iria concorrer à reeleição dali um ano. Ele ainda não havia sido diagnosticado com o câncer entre o esôfago e o estomago que o levaria à morte.

A tensão foi dissipada pelo próprio entrevistado. Em vez de repetir os clichês agressivos que levavam seu partido, e em especial seu antecessor, João Doria, a emular um certo neomarcartismo em pelo século 21, ele mostrou equilíbrio e consciência do desafio histórico que se desenhava. Marcou posição em relação aos ataques promovidos pelo bolsonarismo em diversos campos, a começar pela cultura —setor que ele demonstrava preocupação especial.

De perfil conciliador, ele apontava a necessidade de atualização do partido sem perder as origens da social democracia. Cobrava coerência da legenda em relação aos correligionários investigados por corrupção, num recado evidente ao deputado Aécio Neves (PSDB-MG).

Mostra, ao mesmo tempo, deferência sobretudo a Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do partido.

Antes da entrevista terminar, ele dizia não concordar com a dualidade entre nova e velha política em um país já suficientemente polarizado. Disse que existia apenas a boa e a má política.

Na campanha de 2020, ele concorreu com o maior leque de alianças do pleito. Para o bem e para o mal. Levou consigo o encrencado Ricardo Nunes (MDB) como candidato a vice. Mesmo tendo batido o pé na preferência por uma mulher em sua chapa. A aliança política falava mais alto.

Covas passou a ser atacado por todas as frentes quando ficou evidente seu favoritismo na corrida eleitoral. Não devolveu nenhum golpe abaixo da cintura. Pelo contrário. 

O segundo turno contra Guilherme Boulos, candidato do PSOL, foi marcado pelo respeito entre os dois postulantes. O duelo serviu como exemplo de que é possível debater ideias sem apelar. Ambos tiveram o mérito de deixar o ódio para longe daquele palanque.

O projeto de reconciliação da classe política com o eleitor começou já na campanha. Manter este legado será o grande desafio de seu sucessor.

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