Morte de catador: por falta de carimbo em atestado de óbito, corpo de morador da Cidade de Deus não foi sepultado

O catador de materiais recicláveis Dierson Gomes da Silva, de 50 anos, morto por policiais militares que confundiram um pedaço de madeira que ele levava com fuzil, deverá ser sepultado somente neste sábado, no Cemitério do Pechincha, na Zona Oeste. No mesmo dia, um de seus dois filhos completará 26 anos. Segundo a família da vítima, um problema na declaração de óbito do catador, que teria sido expedida sem o carimbo do médico responsável pelo exame cadavérico, feito no Instituto Médico-Legal, atrasou a liberação do corpo para o sepultamento.

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Segundo Denise Silva Ribeiro, de 49 anos, irmã do catador, a família só soube do problema, nesta sexta-feira, ao chegar ao cartório para registrar o óbito.

— A gente não reparou isso na hora que recebeu o documento no IML. Nem sabíamos que precisava de carimbo. Quando chegamos ao cartório, a gente recebeu a informação de que estavam faltando o carimbo e a assinatura do médico. Provavelmente, o enterro será no sábado, dia do aniversário de um dos filhos do meu irmão. É mais um sofrimento pra gente — disse Denise.

A irmã de Dierson ainda terá de ir, nesta sexta-feira, ao IML para tratar da liberação do corpo, quando pedirá a inclusão do carimbo na declaração de óbito. De acordo com a família de Dierson, a madeira que ele levava seria uma parte de um pé de mesa. O catador costumava acoplar a peça em uma enxada, que funcionava como cabo, para serviços de capina. A alça servia para transportar a ferramenta nos ombros.

Os três policiais militares envolvidos diretamente na morte do catador prestaram depoimento, nesta quinta-feira, na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e estão à disposição da Justiça em liberdade. Eles tiveram às armas apreendidas, e segundo a Polícia Militar, foram afastados das atividades que desempenhavam. A PM também disse que a corregedoria da corporação acompanha o caso.

O catador foi morto durante operação da PM, nesta quinta-feira, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Na ocasião, Dierson estava saindo de casa, na localidade conhecida como Pantanal, levando uma madeira amarrada em uma alça, quando foi baleado por policiais militares do 18ºBPM (Jacarepaguá). Os agentes teriam confundido confundiram o objeto com um fuzil e uma bandoleira.

Ao prestarem depoimento na DHC, os militares alegaram que a guarnição se sentiu ameaçada ao se deparar com "um suspeito" saindo de um barraco com algo que parecia ser um fuzil com bandoleira, em postura de conduta de patrulha, e que por isso disparos foram feitos.

Em nota divulgada nesta quinta-feira, a Secretaria de Polícia Militar admitiu que o homem "foi morto por estar conduzindo o que aparentava ser um fuzil, pendurado em uma bandoleira". O comunicado dizia ainda que "o comando da Corporação já instaurou um procedimento apuratório para averiguar as circunstâncias que vitimaram fatalmente um homem na comunidade".

Pai de dois filhos, Dierson era viúvo. Segundo sua família, ele passou a ter problemas de depressão após perder a mulher e a mãe. As duas morreram há algum tempo por problemas de saúde não especificados pelos parentes. O catador de recicláveis é descrito pela irmã como uma pessoa muito querida na comunidade. Denise Silva Ribeiro disse seu irmão não era bandido e que quer justiça para o caso.

— Meu irmão trabalhava com reciclagem. Era muito conhecido e querido na comunidade. Ele era uma pessoa do bem que começou a sofrer de depressão depois que perdeu a mulher com problemas de saúde. Meu irmão não era bandido. Foi morto por engano. Porque estava com uma madeira na mão que a polícia confundiu com arma. Nossa família está destruída. A gente quer justiça para o que aconteceu — disse.

A operação da PM, deflagrada nesta quinta-feira, na Cidade de Deus contou com participação de Pms do Bope, do Batalhão de Ações com Cães e do 18ºBPM (Jacarepaguá). Durante a ação, foram apreendidos em pontos diversos da comunidade um fuzil, rádios de comunicação e tabletes de maconha.

Procurada, a Polícia Civil disse que houve um equívoco no preenchimento do atestado de óbito e que o erro já foi retificado. Abaixo, a íntegra da nota da corporação.

"De acordo com o Instituto Médico Legal (IML), houve um equívoco no preenchimento do documento, que já foi retificado. O profissional responsável foi advertido."