Morte de grávidas e puérperas por Covid-19 é 78% maior entre mulheres negras do que em brancas

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RIO — As mortes de grávidas e puérperas negras (pretas e pardas) por Covid-19, desde o início da pandemia, superaram em 78% os óbitos das gestantes e puérperas brancas em todo o Brasil. O levantamento foi feito pela ONG Criola — que atua na defesa dos direitos de mulheres negras — com dados do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, atualizados no último dia 26 de maio. Em relação ao total de grávidas e puérperas mortas no país pela doença, negras representam 55,6% do total de casos.

A falta de políticas públicas para esse grupo e a precariedade de serviços de saúde contribuem para os dados. Uma pesquisa de julho de 2020 mostrou que o Brasil era, até aquele momento, responsável por 77% das mortes de grávidas no mundo.

— Se mulheres negras já tinham um percentual de mortalidade materna bastante importante, na pandemia isso vem com muito mais força. Sem orientação, sem proteção e, sobretudo, perdendo o mínimo de direitos que se tinha antes, já que os serviços acabaram deixando de lado o cuidado necessário no pré-natal e no acompanhamento dessas mulheres no pós-parto — afirma Lúcia Xavier, coordenadora-geral de Criola. — A pandemia não só agravou, mas trouxe para essas mulheres a experiência de total insegurança.

A diferença entre o número de óbitos por região também reflete a desigualdade dentro do país. As regiões Norte e Nordeste apresentaram o maior percentual de grávidas e puérperas negras mortas por Covid-19 em relação ao total. Na região Norte, 87,1% das grávidas e puérperas mortas por Covid são negras. No Nordeste, esse número é de 71,1%. Na região Sul, no entanto, cai para 13,7%.

A epidemiologista Emanuelle Góes, pesquisadora do pós-doutorado do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), avalia que a distribuição dos serviços de saúde, principalmente o de média e alta complexidades, que oferecem tratamento para Covid-19, são concentrados em determinados territórios:

— Quando a gente olha a distribuição no país, esses serviços são concentrados no grandes centros, nas regiões do Sul, Sudeste, na capital em relação ao interior, no urbano na comparação com rural. Onde há menos oferta desses serviços, em geral, tem maioria de pessoas negras e maioria de mulheres negras. Esse é o grande desafio quando olhamos pelas dimensões territorial, racial e de gênero, de forma interseccional.

Góes destaca que falta no país a implementação da política nacional da saúde integral da população negra, que poderia, atuar, entre outras ações, no combate ao racismo institucional:

— O racismo vai ser um elemento que vai impulsionar o acesso desigual aos serviços de saúde e impulsiona as decisões, tanto das mulheres de procurarem os serviços quanto dos profissionais de saúde ao atendê-las de forma discriminatória.

Para Xavier, os cuidados com essas gestantes devem ser intensificados nas unidades de saúde, durante a pandemia.

— Na pandemia, é necessário construir medidas de proteção, reforçar o pré-natal, o parto e o puerpério com cuidado e atenção, suporte e apoio a elas porque essas mulheres são vítimas que não conhecem o efeito da pandemia na gravidez. Se as unidades de saúde cuidarem e orientarem essas grávidas, diminuiria muito o impacto da morte.

A questão social na pandemia também foi sublinhada pela coordenadora de Criola. No último dia 12, o presidente Jair Bolsonaro sancionou um projeto de lei que permite o afastamento de mulheres grávidas do trabalho presencial durante a pandemia da Covid-19. Xavier ressaltou que a lei não leva em consideração gestantes negras.

— Não preciso de uma nota técnica de teletrabalho para negras. Mas preciso que as gestantes sejam afastadas do trabalho e possam fazer o trabalho remoto. Se exercem atividades nas quais o trabalho não pode ser feito de casa, precisam de outro tipo de garantia que lhes permita ficar em casa sem perder vínculo trabalhista. No caso das que trabalham por conta própria, essas precisam de algum nível de acordo ou de mais informação para o seu cuidado em saude — afirmou.

Nesta semana, a ONG Criola promoveu a campanha "Gestantes Negras Vivas" nas redes sociais, em alusão ao Dia Nacional de Redução da Morte Materna, celebrado nesta sexta-feira.