Morte de guarani-kaiowá a tiros completa três semanas sem nenhum suspeito

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - As polícias paraguaia e brasileira ainda não prenderam nenhum suspeito do assassinato do indígena da etnia guarani-kaiowá Alex Vasques Lopes, 18, há mais de três semanas. Ele foi encontrado já morto próximo a uma terra indígena em Mato Grosso do Sul.

Com oito marcas de tiros, o corpo foi localizado no dia 21 de maio na cidade paraguaia de Capitán Bado, no departamento de Amambay, a dez quilômetros da Terra Indígena Taquaperi. A área fica em Coronel Sapucaia (MS), onde o jovem morava após a morte de seus familiares. Parte deles já foi vítima de assassinatos.

O nome da etnia guarani-kaiowá ganhou destaque mundial quando uma carta aberta de indígenas foi interpretada como um anúncio de suicídio coletivo, em 2012, em uma aldeia no mesmo estado.

A Polícia Civil de Coronel Sapucaia ouviu testemunhas e um suspeito. Ninguém foi detido. O inquérito da polícia brasileira foi finalizado sem o resultado do laudo da perícia no corpo.

Segundo a assessoria da corporação, o inquérito concluiu que não há indícios de que o assassinato tenha ocorrido em território brasileiro.

Segundo a 4ª Comisaría da Polícia Nacional do Paraguai em Capitán Bado, o corpo foi encontrado a menos de 30 metros da linha internacional que separa a cidade brasileira do distrito no país vizinho.

O boletim de ocorrência daquele país aponta que nenhuma cápsula dos projéteis de munição foi encontrada no local onde o indígena apareceu morto.

Em outro documento da investigação paraguaia, há o relato de um investigador que ouviu uma irmã do indígena, que reconheceu o corpo. Ela teria afirmado que a vítima entrou numa propriedade privada, ao lado da terra indígena onde eles viviam, e que ele estava embriagado.

Já segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), em nota divulgada logo após o corpo ter sido achado, Alex deixou os limites de sua aldeia para tomar banho em um córrego e juntar lenha na companhia de dois amigos. Ele foi o único atingido pelos tiros, de acordo com a nota.

No lado brasileiro, a região é marcada por históricos conflitos de terra em que os indígenas perdem cada vez mais território, vínculos culturais e vidas por meio de suicídio, dependência química e homicídios.

As agressões contra os guarani-kaiowá e as consequências delas constam no relatório Violência contra Povos Indígenas do Brasil 2019 do Cimi.

Entre os crimes sem solução apontados no documento está o assassinato da bisavó de Alex, Xurite Lopes, em janeiro de 2007. Ela foi morta na frente da comunidade indígena durante tentativa de retomada de território.

De acordo com a Polícia Federal de Mato Grosso do Sul, três equipes foram deslocadas para o local nos primeiros dias após a morte de Alex. A PF informa que aguarda a conclusão do relatório dos agentes para se pronunciar sobre o caso e que não há previsão para isso.

Após o homicídio em maio, indígenas da aldeia de Alex invadiram uma propriedade particular. Segundo missionários do Cimi e assessoria do ISA (Instituto Sócio Ambiental), os indígenas vivem frequentes tentativas de retomada de território, com reações violentas.

O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul informou que acompanha o caso e que, "como ainda se trata de uma coleta de informações em fase inicial, não há detalhes a serem informados".

Uma liderança indígena da região, ouvida pela reportagem em condição de anonimato, relatou que todos se sentem inseguros em razão da rotina de violência na área de fronteira.

Segundo o Cimi, houve mais de 40 ataques só em Mato Grosso do Sul desde 2015.

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