Morte de Lázaro Barbosa encerra novela com muitas perguntas

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Lázaro Barbosa de Souza mobiliza centenas de policiais nas cidades satélites do DF
Lázaro Barbosa de Souza mobiliza centenas de policiais nas cidades satélites do DF

A morte de Lázaro Barbosa de Souza, o “psicopata imprevisível” que mobilizou mais de 200 policiais em sua caçada pelo Planalto Central, coloca, mas não deveria, um ponto final em uma novela que já durava 20 dias.

Essa novela colocou um país inteiro diante do espelho. Em um território não muito distante do grande centro das decisões políticas, a caçada expôs as fraturas de uma sociedade fundida entre o arcaico e o moderno. Mobilizou equipamentos tecnológicos, como um app desenvolvido pelo governo local para auxiliar nas buscas —que, durante semanas, falharam em localizar o alvo escondido na mata de vegetação rala.

E transformou um território inteiro em palco de um grande reality show com elenco macabro. Em dos momentos mais tensos, um morador chegou a fazer uma live, para seus seguidores no Facebook, quando tiros foram ouvidos em sua propriedade.

Um policial fez uma selfie durante o resgate de uma família enquanto o foragido corria debaixo de bala.

E ao menos uma deputada fez dublê de Lara Croft, com armas e um helicóptero, para posar de justiceira e jogar nas suas redes.

Como tudo na contemporaneidade, a busca por Lázaro foi, antes de tudo, um espetáculo. Mas um espetáculo com lições a serem tiradas no campo da comunicação, da segurança, da política e da sociedade.

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O caso mostrou os gargalos do sistema penitenciário (ele fugiu quando, já diagnosticado como "psicopata imprevisível", estava no semi-aberto) e expôs os limites da discussão armamentista. Em seus assaltos pela região, Lázaro costumava render as vítimas em ataques-surpresa em busca justamente de armas e munição, além de comida e celulares.

Instrumentos rudimentares eram usados em seus ataques, segundo a polícia. Em um deles, com um machado, feriu o proprietário de uma chácara e matou uma cachorra com um facão.

Espécie de encarnação do estado de natureza, o alvo da caçada demonstrava fixação pela máquina. Com os celulares furtados, gostava de registrar a cena do crime. Algumas das vítimas eram obrigadas a tirar a roupa. Nuas, rezavam com a arma apontada para a cabeça, num registro improvável entre fé e sacrilégio, devoção e perversão.

Além de roubos e homicídios, Lázaro era acusado de uma série de estupros. Uma vítima relatou à polícia o seu ódio a mulheres. Foi na casa de uma ex-namorada, porém, o seu último esconderijo. E foi uma mulher, sua mãe, que fez a ele um último apelo para que se entregasse e explicasse suas razões.

Haveria?

Com 32 anos, o homem mais procurado do Brasil nas duas últimas semanas tinha um histórico de fugas que faria inveja a qualquer roteirista de Hollywood. Em uma delas, foi o único dos detentos de uma penitenciária do interior de Goiás a conseguir fugir pelo teto; os demais foram capturados.

Desde então, perambulou com relativa liberdade por onde passou. Ao menos uma ameaça, feita ao patrão de sua mãe, que a demitiu, foi registrada em boletim de ocorrência.

Ele só virou alvo de uma caçada alguns anos depois, quando quatro pessoas de uma mesma família, um casal e seus dois filhos, foram mortos de maneira brutal. Desde então empreendeu uma história que deixariam no chinelo alguns personagens símbolos da ficção. Dos jagunços de Guimarães Rosa ao João de Santo Cristo da música "Faroeste Caboclo".

Lázaro não foi capturado vivo.

O desfecho da história deixa em aberto uma série de questionamentos.

Um deles é entender por que agiu como agiu. Se por ordem de uma mente perturbada ou a mando de alguém.

Quem não gosta de histórias de Hollywood tem dificuldade em acreditar que uma única pessoa poderia fazer tudo o que fez sem ajuda ou apoio de comparsas ou mandantes. Em tempos de necropolítica, esses teóricos sabem que a morte, na sociedade contemporânea, se tornou um ativo valioso. Inclusive a de seus agentes, sejam eles milicianos das franjas da cidade ou lobos soltos pelo cerrado, quando se tornam descartáveis.

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