Dois anos após morte de Marielle e Anderson, mandante ainda é mistério

Giorgia Cavicchioli
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Marielle e Anderson foram assassinados em 14 de março de 2018. Foto: Reprodução
Marielle e Anderson foram assassinados em 14 de março de 2018. Foto: Reprodução

Há exatos dois anos, o Brasil acordava com uma notícia que iria colocar a democracia do País em xeque. A vereadora Marielle Franco, quinta mais votada do Rio de Janeiro, foi vítima de uma emboscada e foi morta a tiros enquanto voltava de uma reunião de mulheres negras na Casa das Pretas, na Lapa.

Por consequência do atentado contra a vereadora, o motorista Anderson Gomes também foi atingido pelos tiros e morreu. A única sobrevivente do crime foi a assessora de Marielle, que estava no banco traseiro do carro juntamente com a vereadora.

Marielle era defensora de direitos humanos, negra, LGBT, moradora de favela e usava seu mandato para denunciar abusos policiais e ajudar militares que também sofriam com a falta de direitos. Poucos dias antes de seu assassinato, Marielle fez uma postagem nas redes sociais criticando uma ação policial que tirou a vida de um jovem de 23 anos na favela do Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro.

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Em sua postagem, Marielle perguntava: “Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra acabe”? Depois de um tempo, a frase acabou se tornando símbolo da luta por mais direitos dentro das comunidades e da luta da própria vereadora.

Logo depois do assassinato, autoridades, políticos e a população de um modo geral passaram a especular quem poderia ter interesse em acabar com a vida da vereadora. A grande maioria apostava que o crime teria sido uma execução encomendada por milicianos ou políticos que viam uma ameaça na militância e mandato de Marielle.

Na época, o deputado Marcelo Freixo chegou a dizer que o crime tinha características de execução, mas que a família da vereadora afirmou que ela não estava sofrendo nenhum tipo de ameaça. “As características são muito nítidas de execução. Queremos isso apurado o mais rápido possível”, afirmou o parlamentar na época.

Com a rápida repercussão do caso na mídia nacional e internacional, a população começou a questionar quem tinha matado e quem tinha encomendado a morte da vereadora. Foi com esse tom que aconteceram as manifestações em nome de Marielle e Anderson pelo Brasil e pelo mundo. Os atos reuniram milhares de pessoas que pediam para que o crime fosse solucionado e os responsáveis punidos.

Após dois dias do assassinato da vereadora e do motorista, foi comprovado que as cápsulas de munições apreendidas pela polícia do Rio no local do crime pertenciam ao mesmo lote de balas que foram usadas na chacina de Osasco, em 2015.

Em meio às investigações, a família de Marielle também teve que lidar com as notícias falsas que se espalharam a respeito da vereadora. Algumas fake news diziam que ela tinha sido esposa de Marcinho VP, famoso traficante do Rio, outras diziam que ela fazia parte do Comando Vermelho, facção criminosa do Rio. Para tentar barrar a disseminação de mentiras, o PSOL, partido do qual Marielle fazia parte, decidiu processar algumas pessoas que estavam espalhando as inverdades.

Cerca de dois meses após o assassinato de Marielle e Anderson, uma testemunha acusou o vereador Marcello Siciliano, do PHS, de ter relação com o crime. Ele foi investigado pela polícia, mas o suposto envolvimento não foi comprovado. Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, também foi outro nome apontado como suposto mandante do crime.

Na época, o miliciano chegou a escrever uma carta de dentro do Complexo Penitenciário de Bangu, local onde ele cumpre pena. No texto, ele dizia que não tinha envolvimento com o crime e que não conhecia Marielle.

Araújo e a suposta testemunha que o apontou como suspeito trabalharam juntos como seguranças, mas tinham parado de se falar depois que o policial passou a se envolver com a milícia e o tráfico de drogas. O miliciano chegou a ser investigado e prestou depoimento. Porém, sua participação na execução da vereadora e de seu motorista não foi comprovada.

No entanto, em março de 2019, quase um ano após a morte de Marielle e Anderson, as autoridades prenderam dois ex-PMs que foram responsáveis pela execução do crime. Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz foram denunciados pelos assassinatos e pela tentativa de homicídio da assessora da vereadora.

De acordo com as investigações, Lessa foi a pessoa que puxou o gatilho e causou a morte das vítimas e Queiroz era o condutor do carro usado no dia do crime. Um caso que chamou muita atenção na época das prisões foi que a polícia apreendeu 117 fuzis e munições na casa de um amigo de Lessa.

O dono do arsenal foi identificado como Alexandre Motta e foi preso a partir de mais de 30 mandados de prisão que tinham sido expedidos no dia em que o armamento foi encontrado. Em março de 2019, Lessa e Queiroz se tornaram réus pelo crime. Porém, a Justiça do Rio decidiu revogar a prisão preventiva de Motta em junho de 2019.

Até o nome do presidente Jair Bolsonaro foi envolvido no crime quando um porteiro do condomínio no qual o presidente morava na época das mortes citou o nome dele em depoimento à polícia. Horas antes do crime, Queiroz visitou Lessa no condomínio Vivendas da Barra.

O porteiro disse às autoridades que Queiroz afirmou que iria até a casa 58, de Bolsonaro, e afirmou que identificou a voz de quem autorizou a entrada como a do “seu Jair”. No entanto, registros da Câmara dos Deputados provaram que Bolsonaro estava em Brasília, onde trabalhava como parlamentar.

A notícia mais recente sobre o caso diz respeito aos dois acusados pela execução de Marielle e Anderson. Lessa e Queiroz, que são acusados de duplo homicídio triplamente qualificado, vão à júri popular. O pedido foi feito pelo Ministério Público Estadual e aceito pela Justiça do Rio.

Porém, dois anos após as mortes, ainda não foi descoberto quem foi o mandante do crime. A família de Marielle já afirmou diversas vezes que quer saber quem encomendou a emboscada e por qual motivo essa pessoa queria que a vereadora sumisse.