Morre Olavo de Carvalho, guru que transformou ressentimento em força política

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Brazilian writer Olavo de Carvalho arrives for the showing of a documentary on the government of Brazilian President Jair Bolsonaro in Washington, U.S.,  March 16, 2019.      REUTERS/Joshua Roberts
O escritor Olavo de Carvalho. Foto: Joshua Roberts/Reuters

No começo da faculdade, e lá se vão quase 20 anos, me juntei a alguns colegas para escrever um texto, meio ensaio, meio reportagem, sobre a disputa ideológica no país às vésperas do golpe de 1964.

Foi quando um amigo da classe sugeriu que ouvíssemos Olavo de Carvalho. Esse amigo era leitor tão crítico quanto assíduo do astrólogo autoproclamado filósofo, para nós uma figura mais folclórica do que outra coisa.

Mandei um e-mail para ele e ele me respondeu. Marcamos uma conversa por telefone e o que se seguiu dali em diante entra num campo nebuloso e traiçoeiro da memória. O trabalho, como tantos, se perdeu entre papeis e mudanças ao fim da graduação.

Mas, até onde me lembro, Olavo havia sido solícito e atencioso na conversa. Não se negou a responder nenhuma pergunta. E, para nossa surpresa, não proferiu nenhum dos seus conhecidos xingamentos contra os jovens estudante.

Posso estar enganado, mas já na época era possível notar, nas entrelinhas das respostas, seu ranço com as universidades, supostamente dominadas por forças esquerdistas responsáveis por monopolizar o debate e o método de ensino.

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Do episódio o que ficou guardado mesmo foi que um autor conhecido, embora não exatamente respeitado, havia atendido a uma solicitação de jovens estudantes para um trabalho interno da graduação. Éramos ninguém, e isso estava implícito até na nuvem de nicotina e do olhar blasé presente nos corredores da faculdade.

Ao responder nosso e-mail e topar participar de uma entrevista mequetrefe, típica dos iniciantes, Olavo parecia mostrar que não nos desprezava, como tantos. Ele dava atenção e importância para quem não tinha nem atenção nem importância –nem sabia se teria um dia.

Ele também parecia saber que ali poderiam estar futuros editores ou formadores de opinião. E uma oportunidade para prospectar possíveis fendas e inocular suas teorias sobre o mundo e os habitantes de sua cabeça, digamos, complexa.

Com o tempo, e a ampliação do acesso à internet e às redes sociais, aquela figura estranha se tornava também onipresente. Para delírio ou deleite da plateia, cada vez maior, sua conhecida obsessão pela abertura exterior do tubo digestivo vira e mexe cruzava as rodovias das discussões filosóficas como um tijolo sobre o qual ninguém sabia exatamente como guardar e responder.

Olavo era capaz de sentenças do tipo: “em breve só restarão duas religiões no mundo: maconha e cu”.

Em 2018, o jornalista e escritor Mário Magalhães dissecou, em artigo publicado no site The Intercept Brasil, o que chamou de obsessão de Olavo de Carvalho pelo furico alheio. No trabalho de garimpagem apareciam pérolas como “esquerdistas são pessoas que lutam pelo direito de dar o rabo sem ser discriminadas, ao mesmo tempo em que protestam para reclamar que só tomam no cu”.

Quando chamado de ideólogo, ele costumava responder que “ideólogo é o cu da sua mãe”.

Naquele início dos anos 2000, nem o autor da distopia mais improvável imaginaria que o autor das frases acima se tornaria best seller, peça de camiseta com a frase “Olavo tem razão” e peça-chave para entender os rumos do país em direção ao abismo. A ponto de o pai de um dos seus alunos se tornar um presidente obediente e atento aos recados, alguns embrulhados em xingamentos, enviados de sua base, na Virgínia, nos EUA.

Por alguma razão, as versões 2.0 das Senhoras de Santana não se chocavam mais com o vocabulário, palatável para quem via nas sentenças uma arma necessária para enfrentar a suposta hipocrisia de um mundo dominado pelo “globalismo” e o “marxismo cultural”, expressões que se tornaram onipresentes nos discursos mais rasos promovidos pela seita.

Alguns deles entraram e saíram do governo de forma ruidosa. Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Abraham Weintraub (Educação) foram por alguns meses os integrantes da tropa olavista no primeiro escalão do governo. Foi Weintraub quem explicou em voz alta o modus operandi do guru: “Quando ele (um comunista) chegar para você com o papo 'nhoim nhoim', xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais”.

É o que Weintraub e seus amigos de fundão da sala têm feito desde que ganharam o protagonismo que jamais obteriam se obedecessem às premissas racionais e da inteligência sem tomar os atalhos do pistolão ideológico.

A debandada do trio dá a falsa impressão de que o governo se desolavizou com o passar do tempo, o que é reforçado pela exposição recente das mágoas de Olavo com os rumos do governo; mas não leva em conta os fãs e ex-alunos aparelhados em outros escalões do mesmo edifício. A começar pelo gabinete do ódio.

Bolsonaro, que não gosta de falar da morte porque não é coveiro e que não franziu uma sobrancelha de pesar pela perda de uma artista como Elza Soares, na semana passada, correu ao Twitter para lamentar a morte do guru, chamado por ele de “farol”, confirmada nas redes do escritor na segunda-feira 24.

Era Olavo quem estava ao lado do presidente recém-eleito em um jantar com lideranças conservadoras nos EUA em uma de suas primeiras viagens internacionais. Foi nessa ocasião que Bolsonaro declarou que o Brasil não era um “terreno aberto onde pretendemos construir coisas para nosso povo”, mas para “desconstruir” e “desfazer muita coisa”.

Era como se a cabeça do guru tivesse finalmente encontrado um corpo. Um corpo capaz de replicar, como política pública, ideias como a de que “possuir armas não é só uma questão de necessidade, mas de dignidade; quem se recusa a ter armas transfere a outros o dever de matar e morrer para defendê-lo”. E de levar ao poder o modus operandi descrito por Weintraub: xingar o interlocutor quando alguém chamá-lo à razão.

Antes mesmo de Bolsonaro, uma piada até outro dia, se viabilizar como candidato a presidente, Olavo já havia entendido que o ressentimento era a principal força política em um país onde as promessas de futuro não se realizam ou se realizam apenas pela metade. Que o ressentimento é a liga que dá massa a uma multidão de pessoas dispersas e desacreditadas à espera de alguém que lhes ofereça atenção e importância –além de sentido, meia dúzia de inimigos e uma explicação plausível para as derrotas, as evitáveis e as inevitáveis, da vida. O canto da sereia era mais ou menos assim: “você não é um derrotado, você só não passou pela porta estreita da consagração e da admiração dos seus pares porque os pares estão contaminados pelas ideias erradas de mundo; você apenas não se sujeitou. É o preço da liberdade”.

Olavo de Carvalho morreu na segunda-feira (24) nos EUA, aos 74 anos, dez dias depois de cancelar suas aulas online e dizer que havia sido diagnosticado com covid-19, que ele chamava de "vírus mocoronga" e questionava se de fato matava ou só ajudava a "entrar nas estatísticas".

Olavo fazia troça da pandemia e criou a expressão “lockdown anal”. Em postagem antiga, antes mesmo da pandemia que ele dizia ser superestimada, o astrólogo escreveu que vacinas “matam ou endoidam” e sugeriu que nunca fossem dadas em crianças.

Deixou esposa, filhos, netos e um desafio a jornalistas e historiadores que ainda não conseguiram entender como sua figura ganhou relevância e protagonismo na década que descambou nos anos Bolsonaro –no futuro também conhecida como a era da ignorância orgulhosa.

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