Uso político de morte de PM na Bahia é a maior das covardias

·4 minuto de leitura
Às 18h35, o militar inicou uma contagem e disparou com um fuzil calibre 5,56. Foto: Alberto Maraux/Secretaria da Segurança Pública da Bahia
Às 18h35, o militar inicou uma contagem e disparou com um fuzil calibre 5,56. Foto: Alberto Maraux/Secretaria da Segurança Pública da Bahia

Mal a negociação havia terminado, e da pior maneira possível, políticos da tropa de choque bolsonarista, entre eles a presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, correram às redes com seus canudos para sugar até a última gota o sangue de um soldado da Polícia Militar em aparente surto psicótico que precisou ser neutralizado por colegas em Salvador neste domingo 28.

Pela versão que tentam emplacar desde o desfecho do episódio, o PM se revoltou porque se negava a usar a força contra quem não podia trabalhar em meio às medidas de isolamento social na pandemia. Por isso os agentes da polícia comandado pelo governador Rui Costa (PT) teriam matado o colega.

Até a manhã do dia seguinte, ninguém sabia, ao certo, o que teria levado o soldado ao surto. Mas quem acompanhou as negociações pode testemunhar que ele não morreu porque se negou a cumprir ordens, mas porque atirou contra os próprios colegas. Os colegas que, agora, os próceres do bolsonarismo querem jogar contra o governador e parte da população.

Para a narrativa bolsonarista, este pequeno detalhe (o ataque aos pares antes de ser neutralizado) não entra na conta; seus autores já mandaram às favas qualquer cuidado ou escrúpulos para explorar tragédia pessoal e transformá-la em argumento político. Fazem isso não por desconhecer, mas por se alimentar do rastilho de pólvora em um barril até aqui de ódio e manipulação.

A ideia é usar a morte de um PM em confronto com a própria polícia para estimular motins, Brasil afora, no momento em que o presidente Jair Bolsonaro está engajado em confrontar chefes dos executivos estaduais e municipais por discordâncias na condução da pandemia.

Leia também:

Em um dos momentos mais delicados para o atual governo, com um chanceler sendo chamado de marginal por uma senadora em pela luz do dia, o bolsonarismo quer criar um mártir para ser usado como massa de manobra e segurança e seguir promovendo todo tipo de delito. Pois não deve haver covardia maior do que politizar e usar o desfecho trágico envolvendo um policial em surto para interesse próprio.

Os próceres do bolsonarismo teriam mais a oferecer aos que juram defender se levassem a sério as razões que levam os agentes de segurança à guerra, à depressão e ao suicidio.

Os fatos.

Segundo a Secretaria da Segurança da Bahia, unidades especializadas tentaram gerenciar o surto psicológico do soldado desde a tarde de domingo, quando ele efetuou disparos com arma de fogo para cima no entorno do Farol da Barra, um dos cartões-postais de Salvador. No local, testemunhas contaram que ele havia arremessado grades, isopores e bicicletas ao mar.

O Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) precisou ser acionado.

Após três horas e meia de negociações, o homem, que, segundo nota da SSP-BA, alternava momentos de lucidez e acesso de raiva, disparou com um fuzil contra as guarnições do Bope. Teve início, então, o confronto e ele foi neutralizado.

Após a ação, o comandante do Bope, major Clédson Conceição, foi claro em dizer que o militar havia atacado a sua equipe antes do confronto, que tentou impedir de todas as maneiras. “Além de colocar em risco os militares, estávamos em uma área residencial, expondo também os moradores”, disse o comandante.

Um desses moradores é o jornalista João Paulo Gondim, que mora em um prédio em frente ao Farol da Barra e que contou, em sua página no Facebook, como acompanhou a negociação

“Eu vi o soldado chegar na encruzilhada da Marquês de Leão com o Largo do Farol proferindo frases que não pude entender daqui de casa. Depois, ele atirou contra os policiais que estavam na Marquês de Leão. Ao começar a reação dos policiais saí da varanda para evitar que alguma bala sobrasse pra mim. Após o cessar-fogo, voltei pra janela, de onde vi o corpo do soldado no chão.”

Ele criticou os políticos que tentaram usar o episódio para forçar uma narrativa a respeito da pandemia. “Há quem escreva por aí que ‘o policial morreu por se recusar a prender trabalhadores que tentam ganhar a vida honestamente em plena pandemia’. Nada disso. Ele morreu pois mandou bala em colegas de farda. É preocupante que a triste morte do pobre soldado possa servir de estopim para ações orquestradas e golpistas país afora. Torço para que a tragédia do policial no Farol da Barra não desencadeie tentativas de golpe por apoiadores do presidente”, escreveu Gondim, que de sua casa seguiu acompanhando o desenrolar do evento. “Foi um episódio tristíssimo. Triste para o pobre soldado, que morreu; triste para os companheiros de corporação dele, que tiveram que reagir violentamente a um colega de farda; e triste para os moradores da região que, angustiados, foram submetidos a uma tarde de terror”, concluiu.

Que as circunstâncias do episódio sejam apuradas. E que respondam por mais um ato de irresponsabilidade os que tentam covardemente obter dividendos políticos com a tragédia em um país já suficientemente esgarçado pela manipulação do ódio.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos